Estúdio Raposa

Palavras 156
Alfredo Guisado

 


INDICATIVO

Neste programa, a poesia de Alfredo Guisado, um autor um pouco esquecido.

MÚSICA

Alfredo Guisado, poeta português de ascendência galega, nasceu em Lisboa a 30 de Outubro de 1891. Formou-se em 1921 na Faculdade de Direito de Lisboa e em 1922 entrou para a Associação dos Arqueólogos Portugueses. Foi militante do Partido Republicano Português, colaborou no jornal “O Debate” e foi subdiretor do jornal República, o órgão da oposição à ditadura Salazar.
Alfredo Guisado, também escreveu poesia usando o pseudónimo de Pedro Meneses. Foi um dos colaboradores da revista Orpheu, fazendo parte do seu primeiro núcleo e colaborou no primeiro número com uma série de Treze Sonetos. Na verdade, a essa data já era autor de um volume de versos intitulado “Rimas da Noite e da Tristeza”, aparecido em 1913. Nada fazia prever, efetivamente, que o autor dessas rimas, de sentido anedótico e ingénua conceção, viesse a adotar, dentro de pouco, um estilo perfeitamente antagónico do que caracterizou os versos da sua estreia.

MÚSICA

Fernando Pessoa, ao fazer um balanço das atividades do grupo da Orpheu, insere Alfredo Guisado no "movimento sensacionista", enaltecendo, nas suas composições, "a exuberância abstrato concreta das imagens", a "riqueza de sugestão na associação delas", a "profunda intuição metafísica". Destas influências, Alfredo Guisado cria uma arte poética original, que tem como traços recorrentes as liberdades lexicais e sintáticas, um recurso a criação de regências insólitas, maiusculação de nomes, os compostos por justaposição. Ao mesmo tempo, as sinestesias, a alegorização e metaforização aristocrática, medievalista e exótica, redundam num preciosismo que tende menos para a expressão dos sentimentos do que para figurar como motivos do trabalho estético do poema.

MÚSICA

Óscar Lopes afirma que na poesia de Alfredo Guisado ressalta a "inventividade da metáfora" o "equilíbrio de gosto", e a "elegância do verso" surpreende pela originalidade das imagens e alegorias, pelo ornamento do poema e pela expressão dramática da despersonalização:

"Outrora alguém olhou com os meus olhos
E alguém sentiu também com os meus sentidos.
Alguém foi Eu em sonhos derruídos,
Alguém viveu de mim ante os teus olhos.

Por isso me vejo, me conheço
De me ter visto outrora no meu Eu.
0 meu passado é tudo que adormeço
Tudo o que envolvo em mim e me esqueceu.

E as minhas mãos que no teu sonho exaltas,
Outrora para Deus as elevei…
Não tocavam em Deus, eram mais altas.

Minha presença é alma que se ausenta
E o meu passado que ante mim deixei,
Uma cadeira onde ninguém se senta."

MÚSICA

Em 1996 Alfredo Guisado foi distinguido com o Prémio P.E.N Clube. Em 2002, recebeu o grande Premio de Poesia da APE, atribuído a Teatros do Tempo (2001), obra que cumulou ainda o Prémio Luís Nava. É autor de um libreto para ópera “Os Dias Levantados”, de António Pinho Vargas, que tem como tema a revolução de Abril.
Vamos agora ouvir, sem interrupção seis poemas de Alfredo Guisado.

MÚSICA

Na minha quinta, em pequeno,
Tive um inquieto baloiço
Que ainda o vejo sereno
E nele os meus gritos oiço.

Longas horas baloiçava
Meu frágil corpo menino.
E ora subia ou baixava
Num constante desatino.

Nesse baloiço, à distância,
Chama por mim minha infância
E eu chamo p’lo que passou.

E sem haver quem me oiça
O baloiço me baloiça
Entre o que fui e o que sou.

MÚSICA

Ela vivia num palácio mouro...
Nas harpas, os seus dedos a espreitarem
como pajens curiosos, a afastarem
os cortinados todos fios de ouro.
 
As suas mãos, tão leves como as aves,
ora fugiam volitando, frias,
ora pousando, trêmulas, frias,
nas cordas, a sonharem melodias...

E os sons que ela tangia, aos seus ouvidos
chegavam, receosos de senti-la,
voltavam a não ser nunca tangidos.
 
É que ela, as suas mãos, as harpas de ouro,
não eram mais do que um supor ouvi-la
e o meu julgá-la num palácio mouro.

MÚSICA

Ela. Seus braços vencidos,
Naus em procura do mar,
Caminhos brancos, compridos,
Que conduzem ao luar.

Se ao meu pescoço os enrola
Eu julgo, com alegria,
Que trago ao pescoço o dia
Como se fosse uma gola.

O Luar, lâmpada acesa
Pra alumiar à princesa
Que em meus olhos causa alarde.

E o dia, longe, esquecido,
É um lençol estendido
Numa janela da Tarde.

MÚSICA

Os meus olhos são Índias de segredos.
É Portugal seu Corpo esguio e brando.
E as cinco quinas, seus compridos dedos
Em suas mãos, bandeiras tremulando.

Seus gestos lembram lanças. E ela passa...
Seu perfil de princesa faz lembrar
Batalhas que travaram ao luar,
Epopeia-marfim da minha Raça.

O seu olhar é tão doente e triste
Que me parece bem que não existe
Maior mistério do que o de prendê-lo.

Nos meus sentidos vive o seu sentir
E, às vezes, quando chora, põe-se a ouvir
Seu coração, velhinho do Restelo.

MÚSICA

Apagou-se, por fim, o incerto lume,
que, em volta do meu ser, ainda ardia,
e o velho alfange, de inquietante gume,
cortou o voo que meu sonho erguia.

Apagou-se, por fim, o lume incerto…
e fiquei-me entre as urzes, hesitante,
no local que pr’a o além era o mais perto
e pr’a voltar a mim o mais distante.

Abandonada, então, essa charneca,
vestida de silêncio, árida e seca,
rodeou-me a minha alma sonhadora.

Afastei-me. Acabei por me perder:
sem poder atingir o que quis ser
e sem poder voltar ao que já fora.

MÚSICA

Ouvimos, neste programa palavras de ouro de Alfredo Guisado.

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