Pedro Tamen
OBRA

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Íamos à Barca. Não que navegasse:
descia lentamente até ao rio
toda milho e marulhar de pássaros.
Lá perto as pedras recebiam
carícias de água fria coruscante
e verde. O sol crescia.

Não que navegasse: era campo
de pão bordado de latadas.
Vamos à Barca, dizia o meu avô.
E o tempo não tinha dimensão,
ou se a tinha não a tem agora:
foto quadrada a preto
e baço. Onde espreita porém
o brilho agudo que me pergunta ainda
se o que não esquece é fogo
quando aquece, mas que se apaga logo.

ooooooooooooooooooo

Cheguei ao fim.      Andei de pé descalço
sobre os calhaus do rio, senti
a água fria, as vozes de outro
lado.      Ergui me na cisterna, ouvi
pelo tabique o toque do relógio
e desci noutra casa, ao longe,
a escada estreita.      Mas sempre
em tudo isso sentei me na cadeira.

Deslustrei a fama que me deram,
solucei os soluços que passei
com risos importunos.      Abri mão
dos trunfos que os anos me dariam
se os olhos pudessem reabrir se.
As músicas tocaram, mas falei
de arremedos sortidos, da beleza
da mão com sardas brunas, e vazia.

 Matei me esfarelado, e hesitei
entre a folha da agenda e a falha
geológica.      Puxei cordas diversas
e alterei assim o rumo dos teus olhos
com a vela que os vela.      Sou ainda
o feto minutado que o planeta quis
no país, no país, no campo e na cidade,
entre dentes e datas, azar de bruxaria.

 Vário, variei.      Pra trás e pra diante
tropecei, empecilho, no teu entendimento.Vim dos poentes tensos, rapidíssimos,
sobre a terra crestada de moléstia,
vazio de uniforme e de uma carta a chegar.Engrossei a gravata, fiz sorriso
da careta que a alma me ditou,
pontuei o discurso.      Vindimei.

 Andei de flor em flor nos intervalos
de cantar muito a sério que sem asas
é na cadeira que tenho de sentar
o cu dorido de toda a eternidade:
e a mão, a mesma, a mão direita,
mas sinistra, passa do corrimão
para a caneta, a preta, não descreve,
e escreve.      Páro de percorrer.

 Discorro.      Mais: decorro, e sem saber
de que novela saio.
Por sobre o ombro (dói!) lobrigo
tantas confusas coisas, falo delas.
Colo então à própria vista a escrita,
o peso, o contrapeso, a palavra que digo.
Sufoco o medo a medo, e olho a esteira
remudo e quedo, sentado na cadeira.

oooooooooooooooooooooooooo

 choravas        mãe        choravas
eram longas as noites de sábado
o cão gania pelo dono       como tu
para ele o chocolate a tempo       para ti
o palavrão uivado       o bofetão do sábado
cara contra a parede
de madeira
um outro quarto esconso       o relógio da sogra
choravas       mãe       choravas
antes       depois       durante

onde estão agora as tuas lágrimas
pergunto       qual a mais valia
se a terra à tua volta estava seca
ao meter te na caixa
e ora a caixa está
e ora a caixa está já não chorando

oooooooooooooooooooooooooooo

             (Milénio)

Lembro me muito bem do Ano Novo de um:
inaugurávamos o primeiro milénio
e na varanda da sua casa sobre o Tibre
Publius Primus Varius gozava o fresquinho da noite
digerindo os vestígios do banquete
dado para comemorar
e meditava no que haveria a dizer no fim do ano mil
quando um seu descendente couraçado
se borraria de inquietação e medo
pensando que nenhum papa o salvaria
de não entrar de pé no milénio dois.

Lembro me perfeitamente.

Godofredo o Perdulário já não sabia a quem pedir
que o deixassem pensar um bocadinho
nos intervalos de tantas montarias.

Seguia a construção de Compostela
e nascia de parto normalíssimo
um ascendente de um bravo combatente
da batalha de Navas de Tolosa.

oooooooooooooooo

Há de um dia o dente do futuro
dar ao dente no pão que o dente dantes
com demora mordeu tornando assim possível
o depois sobreposto à juventude, ao apetite.

Um dia há de ser outro, porém, o intestino,
diferente do que um dia encaminhou o pão
ao radical passado, à natureza.

 Mas não queda arrumado, não dependurado,
qual quadro, relembrança, assombração:
ele, o desaparecido, partiu ressuscitado.



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