BOSQUE
As cordas do Verão
Desenham a trama do bosque.
A serra mecânica espalha o seu uivo:
Escombros de árvores pelo chão.
E no vento, sobre o uivo,
Os farrapos de lendas e mitos:
O leão em sangue,
A virgem e o seu ciclo.
Das nuvens, por entre ramos,
Fio após fio,
O céu fica deserto.
RUA
A manhã desintegra se
Quando o badalo do nevoeiro
Cobre a rua de silêncio.
Quisemos as árvores de ocre,
Mas continuaram em verde.
O céu era azul
Para além do nosso desejo.
Meio dia e os segundos são cinzentos,
O fumo violeta e a tua liberdade incolor.
MESA E GARRAFA
Na bidimensão
O poema instala
As suas diversas faces.
Sem quebrar a sua forma
O prisma desdobra se
Como leque sobre a mesa.
Um volume que contém
A solidez de outros volumes
A luz no centro de outras luzes
E o homem no centro de si próprio.
A forma simultânea
Do mundo em uníssono:
Da ilusão ao romance
Com as estrelas e o sol.
E vai o poema como o nevoeiro:
Percorridos por vagas de silêncio.
PRAGAS
Morreu em cheiro de santidade o monge.
Órbitas cavadas que perderam a luz.
Leu noite e dia,
Todas as noites e todos os dias.
E sempre expressou dúvidas e não achou porto.
Pregou um sermão, o mesmo sermão,
Com voz de metal e estentórea.
Antro dos ricos, que vêem o mal,
Onde se ocultam? Paraíso dos simples
Que padecem a dor e se preparam para receber
A remuneração da verdade: honra e vida.
O monge habitou o mosteiro
E nos frutos podres do jardim
Julgou ver a fábrica do mal,
O sorriso do diabo nas chagas.
Perdeu se num labirinto de impressos.
A árvore das palavras impediu o de ver a floresta.
Face ao incompreendido, o anátema.
A certeza afogava se em oceanos de ignorância.
Os que se apartam são sinagoga de Satanás.
E o dedo do anjo da igreja assinala o réprobo
E a blasfémia será pão que nega a vida.
Selaram o sepulcro.
Ergueram catedrais com orações.
Pontual, a morte fazia a sua colheita.
Essa história registou se em sudários de aflição.
O CASTELO
O que foi castelo de reis e dignitários
Corta o horizonte com as agulhas de São Vito.
Se se tivesse perdido na guerra relâmpago
Agora velaríamos a memória das suas ruínas.
Por alguma razão do destino sobrevive
Mais perdurável do que a humana razão.
FIRMAMENTO
A noite é uma tatuagem de estrelas
As linhas correm por entre os astros
E traçam o mapa do labirinto
Linhas escuras e sigilosas
Nelas deciframos as manchas
Do alfange de prata
A noite fecha as pálpebras
GOBELIM
Não há espinhos entre as suas rosas
Apenas núbeis figuras que imaginam
Façanhas e lendas
Do unicórnio e do seu mistério
E dançam e caminham
Em torno da sua prisão
Ardem como lanternas
E as línguas de fogo
Consomem o gobelim