Estúdio Raposa

Lugar aos Outros 111
João de Sousa Teixeira

 


INDICATIVO

Este é o penúltimo programa do Lugar aos Outros e nele vamos ouvir poesia de João de Sousa Teixeira.

MÚSICA

O primeiro programa Lugar aos Outros destinado a chamar a atenção para autores que “ainda não chegaram às estrelas, estreou-se no Estúdio Raposa em Maio de 2006. Faria, pois, dentro de pouco tempo, 4 anos de existência.
Durante esse tempo referi, algumas vezes, a dificuldade em conseguir dos autores, uma nota biográfica. Houve os que queriam o anonimato até aos que enchiam páginas de dados da sua vida. Casos houve em que, dada a qualidade das notas, elas foram lidas na íntegra. É o que acontece com o autor que hoje vamos ouvir: João de Sousa Teixeira. No texto do João pouco mais vou fazer senão mudar o discurso directo para o indirecto.

MÚSICA

Em meados da década de sessenta, João de Sousa Teixeira comecou a escrever arremedos do que havia de ser poesia e as pessoas acharam-lhe graça. Em 1972, por conta própria e empenhamento de muitos amigos publica os seus dois primeiros livros de poesia: Ro(s)tos do Meu País em 1972 e Terra Alheia no ano seguinte.
Veio a tropa. Na guerra, manteve-se ao abrigo do ar condicionado: foi colocado em Cabo Verde. Por ali foi escrevendo em folhas de jornal. No caso o “Jornal Novo” até à independência do Arquipélago, em 5 de Julho de 1975.
Em Portugal havia coisas mais importantes que a sua poesia e desatou a lutar por coisas melhores, o que ainda hoje acontece, pese a desilusão e… a idade. Ah, e havia os seguros em que trabalhou durante 29 anos.

MÚSICA

João de Sousa Teixeira só em 1980 voltaria a editar e logo três livros de poesia: Ultrapassar os Limites em 1980, Poesia de Costumes dois anos depois e Corpo de Poema em 85.
E acabaram-se, aí, as edições de autor. Voltou aos jornais, às revistas e também às coletâneas. Coisas de entreter e sustentar o vício.
Em 1988, a Vega editou-lhe “Alegria Incompleta” que, aliás, fora contemplado com o Fundo de Apoio à Edição de Autores Portugueses da A.P.E., patrocinado pela Gulbenkian. Só 20 anos depois soube que Fernanda Botelho gostou do que leu e disse-o na Colóquio/Letras, com o título de “Poesia do coisismo”. Em 1991, a Câmara lá do sítio, pagou-lhe a edição de E(n)cantos de Castelo Branco.
Em 1999 deixou a Beira Baixa, os seguros e coisas menos relevantes e rumou ao Alentejo. Viana do Alentejo. Coisas bem, coisas assim-assim e coisas do arco-da-velha, emprego na Câmara Municipal e novo livro. Agora era ficção, “Mar de Pão”, onde João de Sousa Teixeira se rende ao Alentejo de alma e coração. A Campo das Letras editou o texto, em 2003.

MÚSICA

Com a mania de ter opinião sobre tudo o que acontece não deixou de escrever uma crónica mensal no Ensino Magazine, da editora RVJ, ofício que tinha desde a sua fundação há dez anos. Em 2008, quiseram estes amigos editar-lhe “Rebuçados, Caramelos & Sonetos”, poesia.
Descobriu recentemente a blogosfera para uso pessoal e agora, tem um blogue em que divulga um inédito intitulado “Prova de vida” e montes de poemas. Aliás, são desse inédito, os 5 poemas que vamos ouvir.
Finalmente, e voltando ao discurso direto, ouçamos João de Sousa Teixeira: Quando em 1952 nasci, em Castelo Branco, os meus pais não suspeitaram nada do que acabo de contar. Talvez por isso me trataram sempre bem. A mim e aos meus quatro irmãos.

MÚSICA

Ouçamos cinco poemas retirados o seu trabalho, ainda inédito, “Prova de vida”.

MÚSICA

O pião e o berlinde, o arco e a bilharda; a fisga,
a bola e o botão; a carica velha disfarçada de ciclista,
eram os satélites predilectos do meu universo
– como lhe chamo agora – todo mundo, e o mundo era a minha rua.
De longe a melhor de todas as ruas:
para as corridas intermináveis,
para a incessante procura de esconderijos únicos,
para a invenção de novas brincadeiras.
O Tó Luís era o mais inquieto e sol de pouca dura,
a Maria dos Santos e a Rosa Maria quase nunca saíam de casa,
mas com Quim Manel passava horas sem conto.
Com ele e com a minha avó Teresa,
que me deu cuidados de mãe e toneladas de Farinha Amparo,
e me levava às missas do Mês de Maria
com a fé na promessa de um gelado no regresso.
Apesar de tudo, os dias decorriam ao ritmo de carrossel de feira,
como uma festa sem data, sem termo e sem publicidade
ou outras banhas da cobra.
Havia ainda um largo e nele um chafariz
com água que apenas os animais aproveitavam
em demorados, quase intermináveis sorvos,
– como fazia o macho do Barba Danada –
que lhes matava as sedes presentes e talvez outras mais antigas
e não saciadas no exacto tempo.
Eu bebia com o olhar toda aquela água
até sentir o estômago farto e inchado de tanta imaginação.
Dos pequenos acidentes, lembro-me apenas de um braço partido,
curado em água e sal e vinte dias de paciência,
arranhões vários, sem grande significado,
e uma pelada, que o meu pai debelou com muita bonomia
e algodão embebido em Trichophytina.
Os dias eram inteiros e enormes.
Não havia meio-dia, nem as inclinações do sol faziam qualquer sentido.
O tempo corria até ao fim da rua
e regressava com a mesma pressa de chegar a lado nenhum.

MÚSICA

Havia notícias duma guerra longínqua
e, ao mesmo tempo, presente em todos os gestos e falas.
Mais gestos do que falas.
Os nossos eram os bons e acenavam com um adeus sombrio
quando embarcavam em Lisboa.
Os que ficavam no cais imitavam-nos,
mas com lenços e lágrimas, num mesmo adeus sombrio.
Não se sabia se o inimigo também embarcava desta forma
e se chorava, se tinha um cais,
família e despedidas com lenços, lágrimas e um adeus sombrio.
Os nossos não morriam nunca,
como nos filmes; desejavam prosperidades todos os natais
e escreviam aerogramas para as madrinhas de guerra,
prometendo regressar mais saudáveis do que nunca.
Que soubéssemos, como disse,
os nossos eram os bons
e isso transformava-nos em inocentes querubins de alma branca
e olhar atónito, sem lágrimas que não fossem de imitação.

MÚSICA

Em Abril, já o grito de revolta era maduro,
já o trigo intenso rompia na seara.
Em Abril, já a claridade era sol puro,
que, pela bondade, era ainda coisa rara.

Ao matiz das papoilas nada se compara,
nem aos cravos ardentes, que do escuro,
brotaram rubros, naquela manhã clara,
ao mesmo tempo a luz e o seu futuro.

Nada a declarar. Além da liberdade,
em rascunho, alguns apontamentos
clandestinos para esse Abril de tenra idade.

Cresceu. Foi Maio noutros momentos,
foi em pouco tempo uma eternidade
e foi depois Novembro e outros ventos.

MÚSICA

Muitas vazes o amor é simples
– apenas um pouco dolente e magoado – mas simples.
Foi o que encontrei nas primeiras estrofes
dactilografadas na velha Underwood e,
não fosse o reconhecimento imediato de alguns dos caracteres,
diria não serem meus aqueles cantos.
Mas não tenho dúvidas agora.
Depois de ver Garcia Lorca dançar sobre os versos,
Daniel Filipe suster a respiração, mas não o amor,
Pablo Neruda caminhar nu sobre os poemas
e o Paul Éluard, e o Nicolas Guillén,
e o José Gomes Ferreira,
e o Aragon, e o José Ferreira Monte,
suando cada palavra escrita,
chorei compulsivamente sobre os meus erros de ortografia
e beijei o teu retrato mais recente.

MÚSICA

Não te vou mentir:
o que não tem música
ainda não sabe que está morto.

O melro trajou de gala
para o último concerto
e a recente primavera vestiu-se de luto.

Não te vou mentir:
pode escutar-se a melodia
durante o silêncio da orquestra.

Bastam os címbalos
(oh, scherzo de brisa e espuma!)
Basta a nudez das notas.

Não te vou mentir.
Consegues ouvir-me?
- É o solfejo do teu corpo.

MÚSICA

Ouvimos no lugar aos Outros de hoje, o penúltimo a ser transmitido, trabalhos de João de Sousa Teixeira retirados do seu livro, ainda inédito, “Prova de vida”.
Até ao próximo programa que será o último desta série, "Lugar aos Outros"

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