Violeta Parra
OBRA

Voltar aos dezassete

Voltar aos dezassete
Depois de viver um século
É como decifrar sinais
Sem ser sábio competente
Voltar a ser de repente
Tão frágil como um segundo
Voltar a sentir fundo
Como um menino diante de Deus

O que sinto agora
Neste instante fecundo
Vai-se enredando enredando
Como no muro a hera
E vai brotando brotando
Como o musgo na pedra
O meu passo a retroceder
Enquanto o vosso avança

Um arco-íris penetra o meu ninho
Com todas as suas cores
Passeia-se nas minhas veias
E até as duras correntes
Com que nos ata o destino
São como um diamante fino
Que ilumina a minha alma serena

O que o sentimento pode
Não o pôde o saber
Nem o mais claro proceder
Nem o mais aberto pensamento
O momento
Mago condescendente
Tudo muda
Afastando-nos docemente
De rancores e violências
Só o amor com a sua ciência
Nos repõe assim inocentes

O amor é remoinho
De pureza original
Até o feroz animal
Sussurra um doce trinado
Detém o peregrino
Liberta os prisioneiros
O amor com seus esmeros
Do velho faz menino
E ao mau só o carinho
O refaz puro e sincero
De par em par a janela
Abre-se como por encanto
Entra o amor com seu manto
Como uma morna manhã
Fazendo brotar o jasmim
Voando qual serafim
E os meus anos em dezassete
Converte-os o querubim.

(1964/65)


.