Século de Ouro Espanhol II
OBRA


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Jardim

Quem não sabe de amor e seus efeitos·
não se intrometa e cale o que vier,
pois aqui só falamos com discretos.

Qualquer que o seja, ou sê-lo quiser,
terá licença de olhar minhas flores
e delas escolher as que quiser.

Mas os escrupulosos grunhidores
não quero nem consinto que as vejam,
pois não são para néscios os amores.

As damas e donzelas que desejam,
bem que não sendo belas, ser amadas,
sempre este livro leiam e revejam.

E as que de formosura são dotadas,
porque não basta só a formosura,
aqui verão mil graças derramadas.

Aqui não há enigmas nem figura,
rodeios, circunlóquios, indirectas,
mas claridade inteligente e pura.

Espero contentar mesmo as discretas;
e se alguma fugir de minhas flores,
é uma das mofinas indiscretas.

Se não, mostre-nos ela outras melhores,
ou, ao menos, confesse se na cama
contente ficaria com piores.

Termino com dizer que eu é que chamo
Jardim de Vénus a este meu livrinho,
no qual não acharão nem um só ramo
que não tenha de gozo algum pouquinho.


14

Oh doce noite! Oh cama venturosa!
Testigos do prazer e da alegria,
dizei-me que julgais vós da porfia
daquela dama doce e amorosa.
Como se me mostrava rigorosa!
Como de minhas mãos ela fugia!
Como duas mil injúrias me dizia,
minha doce inimiga cautelosa!
Porém, como depois me deleitava,
prendendo-me em seus braços amorosos,
e abrindo aquelas pernas delicadas!
Com que brandura seus meneios dava!
Que beijos me of'recia, tão gostosos!
E que palavras tão açucaradas!


12

Esse chegar de repente e abraçá-la,
esse pôr-se a lutar ele com ela,
esse cruzar suas pernas com as dela,
aquele poder mais ele e derrubá-la;
aquele vir abaixo, e ele sobre ela,
e ela cobrir-se e ele destapá-la,
esse pegar na lança e espetá-la,
e esse teimar dele até metê-la;
esse jogo de lombos e cadeiras,
e as palavras tão meigas e amorosas
que um ao outro murmuram, apressados;
esse voltar e andar de mil maneiras,
e fazer neste transe outras mil coisas
nas legítimas perdem os casados.



4

Primeiro é abraçá-la e apalpá-la,
e num instante com beijos entretê-la.

Primeiro é provocá-la e encendê-la.
depois lutar com ela e derrubá-la.
Primeiro é insistir e arregaçá-la,
as pernas pondo entre as pernas dela.

Primeiro é acabar isto com ela,
depois vem o deleite de gozá-la.

Não fazer, como soem os casados,
mais que chegar e achá-la preparada:
de tão doce, dá fome verdadeira.

Hão-de ser os deleites desejados;
se não, não dão prazer nem valem nada,
pois não há quem o barato comprar queira.


5

- Que fazeis, bela? - Olho-me a este espelho.
- E porquê nua? - Pra melhor olhar-me.
- E em vós que vedes? - Que quero gozar-me.
- E porque não vos gozais? - Sem aparelho?
- O que vos falta? - Quem seja em amor velho.
- Pois, que sabe esse fazer? - Sab'rá forçar-me.
- E como vos forçará? - Com abraçar-me,
sem esperar licença nem conselho.
- E não resistireis? - Bem pouca coisa.
- Para quê tanto? - Menos que aqui digo;
que ele me saberá vencer, se é atilado.
- E se foge, por ver-vos pudorosa?
- Hei-de ter esse tal por inimigo,
vil, parvo, mole, pouco abonado.


10

Damas, as que vos queixais de mal casadas,
fazei-vos desejar, fareis amar-vos;
que jamais aconteça o ofertar-vos,
por mais que estejais sendo abraçadas.
Sempre haveis de mostrar que sois forçadas,
que vos vence o marido; e, ao furtar-vos,
com resistência sempre haveis de armar-vos:
vereis como sereis mais estimadas.
Quando sentirdes mais o que ele quer,
demonstrareis bem menos percebê-lo;
deixai que ele o procure, que mãos tem.
E quando ele o buscar e requerer,
antes que vós chegueis a concedê-lo,
comprovai o apetite com que vem.




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