Maria Paula Raposo
OBRA



A tua canção

O mar voltou a chamar-me,
brando, azul;
ondulando
levemente de espuma e paz.

Eu regresso, de mansinho
(ao seu afago),
canto a tua canção
-num beijo inesgotável-
quando o mar me desperta
todas as ausências:
eu te chamo breve em nós.


AMBÍGUO

É pequeno o mar
para guardar
todas as palavras de amor
que te digo;
o céu de nuvens, carregado,
prenuncia chuva,
água na enchente do rio:
palavras de amor
nas margens submersas.

Enorme foi o mar
Rasando a minha ambiguidade.


AQUECE

Não deixes arrefecer,
aproveita a imaginação
e no vento frio,
que nos gela,
aquece comigo a noite.

Deixa que a madrugada
regresse a casa
e o calor se faça sentir,
como a memória,
agora ausente,
do que fomos;
nas entranhas
os únicos sobreviventes.


ATRASOS…

Sempre olhavas o relógio
E as horas marcadas
Para estar em casa

Quando começava
A despir-me
Olhavas-me cobiçoso
E tocavas-me
Onde sabias

As horas ficavam para trás
(Mas nunca te atrasavas
Em casa)

Atrasavas-te só em mim
No reboliço
Em que deixavámos
Metade de nós…


Carta de paixão

Escrevo-te:
mais uma carta de paixão.
Conto-te do desejo,
do incontornável calor
do teu corpo e do meu,
da saudade vincada de ti,
da cama, do suor, do orgasmo.

É: uma carta de paixão
(esta), a que te escrevo,
com palavras que escorrem
no envelope.

Vem hoje;
para que eu me venha, também.


CERTO/ERRADO

Não vale a pena questionar-se.
O encontro foi na hora errada;
o homem era o errado;
o encontro foi na hora errada;
o homem era o certo (coisa que não sabemos).

Não vale a pena duvidar.

O encontro foi na hora certa;
o homem era o errado;
o encontro foi na hora errada;
o homem ainda(!) era o errado.

Não vale a pena desmoralizar.

O encontro mesmo na hora certa
nunca é com o homem certo (!);
e na hora errada,
nunca está certo:
o homem é sempre errado.


CORPO

Hoje quero vaguear
Quero ver-te
Quero olhar-te
E quero dizer.

Avanço na avenida
O pensamento percorre-te
E tu distraído
Reparas em mim.

Lambes-me os dedos,
O pescoço
E deslizas o teu sexo
Como se me descobrisses

E o teu tesão acentua-se
Na proporção directa
Do meu frenesim.

Envolvemo-nos
E nunca sabemos como acabamos…


ESPLENDOR

Vai-me falando de amor
Num gesto doce
Com o mar como fundo
E um filme de lenta harmonia

Vai-me falando as palavras
Que inventas
Que a toda a  hora insinuas
No gesto especial de me quereres

Fala-me de amor enquanto esperas
Que eu chegue
E simplifique o acto
Sensualizando na pele
O momento perfeito

Falando-me de amor
O húmido esplendor
De um orgasmo.


FINAL DE TARDE

Era um final de tarde em Junho.
O ano (não interessa).
Inesperadamente
beijaste-me
como quem se entrega,

como se me dissesses
que sim, que nos amaríamos,
que a partir daquele momento
a nossa relação
valeria a pena.

Engano.

Não valeu a pena.
Trouxe sofrimento
e lágrimas
(não arrependimento)
e deixou-me, mesmo assim,
o sabor doce
do teu sexo.


Insatisfação

Foi paixão,
encanto, voz doce,
palavras de despertar:
encontro e magia.

Foi tentar despertar-te,
loucura e impotência,
querer-te e não ser capaz:
desejar-te.

Foi tudo, foi nada,
foi pouco e não muito,
um parágrafo,
um destilar de emoções:
voltar ao zero.

Foi e é a insatisfação.


Sonhos de água

Em mar tornei os sonhos
E desfiz-me nas marés
Prolonguei
A estadia
Junto dos búzios
Na areia
E em sol voltei voando
Recompus
Todos os sonhos
E permaneci
Na ousadia do teu corpo nu.

Transformei-me
Em água.


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