Octavio Paz
OBRA
 

Madrugada

Rápidas mãos frias
retiram uma a uma
as vendas da sombra
Abro os olhos
Ainda
estou vivo
No centro
de uma ferida ainda fresca.

(tradução de José Bento)


ARCOS                                  

A Silvina Ocampo

Quem canta nas ourelas do papel?
De bruços, inclinado sobre o rio
de imagens, me vejo, lento e só,
ao longe de mim mesmo: 6 letras puras,
constelação de signos, incisões.
na carne do tempo, ó escritura,
risca na água!

                     Vou entre verdores
enlaçados, adentro transparências,
entre ilhas avanço pelo rio,
pelo rio feliz que se desliza
e não transcorre, liso pensamento.
Me afasto de mim mesmo, me detenho
sem deter me nessa margem, sigo
rio abaixo, entre arcos de enlaçadas
imagens, o rio pensativo.

Sigo, me espero além, vou me ao encontro,
rio feliz que enlaça e desenlaça
um momento de sol entre dois olmos,
sobre a polida pedra se demora
e se desprende de si mesmo e segue,
rio abaixo, ao encontro de si mesmo.


MAR PELA TARDE
 
Altos muros da água, torres altas,
águas subitamente negras contra nada,
impenetráveis, verdes, cinzentas águas,
águas de repente brancas, deslumbradas.
 
Mar despido, sedento mar de mares,
fundo de estrelas mas de espumas alto,
fugitivo branco da prisão marinha
que em estrelares limites se desfaz,
 
que memórias, desejos prisioneiros,
acendem na tua pela suas verdes chamas?
Em ti te precipitas, te levantas
contra ti e de ti mesmo nunca escapas.
 
Tempo que se congela ou se despenha,
tempo que é mar e mar que é bloco de gelo lunar,
mãe furiosa, imensa rês fendida
e tempo que devora as suas próprias entranhas.