Olhar 
Olhá-los-ás sempre iluminados e partidos
aquele que te quer
e querendo te não quer
mesmo que queira
passareis assim num passeio ao longe
por tua avidez criados e ausentes
tal como uma luz certeira e crua
te ordena
à inclinação que as horas determinam
e no entanto suspendes-te
por vezes a olhar como se
inquebrado
alguém irrompesse contra a luz:
a sua queda e sua ordenação
nunca e sempre será
um tempo sem baínha
quando ter-te e não te ter
tão perto e longe
Piano solo 
Há seres assim que se encerram
nos mais rasos e
desabridos campos onde
placas negras de xisto e rosa
ou grandes massas de pedra por vezes
entreabrindo laminadas estrias acres
sem brandura
esse é o teu hirto gesto
o corpo reduzido a que
suporte apenas o rictus de um olhar
sonâmbulo e fixo e seu
trabalho dobrado sobre
as mãos escusas
já não carne: apenas
o espírito desse vento descampado
em tão cerrada e rente
soletração do tempo
tudo o mais é acre e breve riso
palavras ociosas e agitadas
(como se por elas
de tão brancas terras
te afastasses)