Maria Alberta Menéres
OBRA



Água-Memória

Que súbita alegria me tortura

alegria tão bela e estranha

tão inquieta

tão densa de pressentimentos?



Que vento nos meus nervos

que temporal lá fora

que alegria tão pura, quase medo ao silêncio?

Pára a chuva nas árvores

pára a chuva nos gestos,

interiores contornos

divisíveis distâncias

ultrapassáveis gritos

que alegria no inverno,

que montanha esperada ou inesperado canto?


O sósia

Ele, não era ele. Era o igual,
o que sorvera os frutos transparentes
que tombavam do rosto
de outra mãe.

Mas tinha o mesmo andar
a mesma raiva
de concentrar os passos imponentes
no poderoso círculo

Ele não era ele. Era o igual,
mas escondia na alma que restava
uma bala perdida e rebrilhando
ao sol como um pedaço de cristal.

Quando o prenderam e o condenaram
em vez do outro que este sim
salvara,
nunca os olhos pararam de brilhar.

Quem era ele, se assim tomava
sobre os seus ombros o destino alheio
que alheio já não era, mas o seu
próprio destino procurado ou não?

Ele não era ele. Era o igual.
Mas quando a bala o procurou
no peito,
encontrou sua vítima perfeita.


AS PEDRAS

As pedras falam? pois falam
mas não à nossa maneira,
que todas as coisas sabem
uma história que não calam.

Debaixo dos nossos pés
ou dentro da nossa mão
o que pensarão de nós?
O que de nós pensarão?

As pedras cantam nos lagos
choram no meio da rua
tremem de frio e de medo
quando a noite é fria e escura.

Riem nos muros ao sol,
no fundo do mar se esquecem.
Umas partem como aves
e nem mais tarde regressam.

Brilham quando a chuva cai.
Vestem-se de musgo verde
em casa velha ou em fonte
que saiba matar a sede.

Foi de duas pedras duras
que a faísca rebentou:
uma germinou em flor
e a outra nos céus voou.

As pedras falam? pois falam.
Só as entende quem quer,
que todas as coisas têm
um coisa para dizer.

.