O AMANTE ESBELTO 
Queria que o meu amante esbelto
me trouxesse o amor fecundo
antes do caos que criou o mundo
plantando as centelhas do início;
queria o âmago do amor
mesmo fictício.
No abraço do amante esbelto
a promessa da fidelidade sagrada
o começo da explosão e implosão
o nada reduzido à planície primeira
onde a ungida flor abrisse ao Sol.
Esqueçamos o amante esbelto
e a inútil promessa herdada
somos apenas a humana raça
pendurada num imenso estendaI
erguida em fria madrugada.
Fixemos apenas o espasmo visceral
que celebra o que chamam amor
depois do acto, chegue a velha ama
para não mais deixar de nos embalar
o mar acolherá nossas lágrimas de sal.
E na imensidão do mar profundo
a luz penetrada é quilha de prata
antes do caos que criou o mundo
era eu a eleita por ele amada ...
do amante esbelto esqueci o nome.
ILHA 
Há um oceano de gente a minha
volta um palrar de coisas ditas,
promessas vãs de políticos,
becos, caminhos sem rota.
Paz só no meu jardim
onde oiço o cantar dos pássaros,
vejo a cor das borboletas,
o desabrochar das flores;
mesmo com os olhos cerrados
conheço os sons, as cores,
o cheiro e os limites.
Elegi meu derradeiro refugio:
é o castelo feudal sem gentios,
meu trono é degrau de escada.
Vejo o Sol nascer e pôr-se
a calmaria e a ventania
poupam-me da monotonia.
No ninho dos rouxinóis
há novos bicos famintos,
os melros estão menos tímidos.
Sou apenas uma outra personagem
que chegou de um mundo louco
e parou ou desistiu da viagem.
Casa Belos Ares, Estoril
A ENCRUZILHADA 
No fim da estrada há uma encruzilhada tremenda.
O passado é um caleidoscópio de interrogações,
o presente, o restrito momento de um pensamento,
o futuro, uma nódoa onde o sangue se transmuda
se volatiliza e sobe ao céu em frágil renda.
Todo o axioma entrou em coma.
A lei agora é escapar, sobreviver.
O casamento deu-se, sem boda.
Faz-se amor como se clica o computador,
só tem fascínio o proibido.
O plantel actua no estádio vibrante,
a banda electriza de gestos e metais.
Esquecem-se os mortos da estrada
das guerras, epidemias, fomes.
Abre-se meia porta ao emigrante
que rasteja pela fresta errada.
Já não há encruzilhada nenhuma
nem pensamento a considerar
nem sentimento de culpa a arder
nem projecto a aquecer
nem raiva a crescer em amor.
Há sim a pressa de viver
num mundo que se dissolve em bruma.
SEM TEMPO PARA ESPERAR 
fui encontrando farrapos de alma
em caminhos obscuros
na miragem de espantosos poentes
engravidei de muitas esperanças.
Quase uni pedaços desavindos
quase soltei vivos demónios
com amigos e inimigos fiz alianças.
Travei o precipício do efémero
e nesse instante acordei só.
Sem cordão umbilical à terra
sem âncora e sem religião
- meus olhos já viram demais
meus ouvidos estão cerrados
- o corpo tropeça na gravidade
sou virgem de uma verdade.