José António Almeida
OBRA


A VILA DE CUBA EM VERSO LIVRE

Ostracismo
de pequena vila de província,
com o seu bolor de inveja
ataviada de moralidade,
criadagem vil e daninha
sempre disposta a murmurar
por meias-palavras peçonhentas
a um belo jovem, trabalhador
emigrante de origem romena,
que não entre em certa casa
onde mora um descendente celibatário
dos antigos patrões dessa mesma criadagem,
para não perder a popular crista de macho
– nem expor-se a inominados perigos,
e outras ameaças e avisos.

Palavras mais tarde repintadas
de azul, cor-de-rosa, algodão velho.

Sibiladas insinuações, murmúrios
cobertos de trevas.

Vermes comendo à luz do sol
os ouvidos da sua alta
beleza de vinte e dois anos,
que as raparigas da terra, no entanto, desprezam
– pois é estrangeiro
e, ainda por cima, pobre.

"Toda a vila sabe que estive em tua casa."
A casa grande, no largo da matriz.

Ostracismo
de pequena vila de província,
com o seu coreto de maledicência,
escória apoiante de todos os fascismos.


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