![]() |
||||||
|
Helena Maltez OBRA |
||||||
sonho...
a noite entrou, encantada
adormeceu-me o corpo
envolveu-se nos meus sonhos
fez-me sentir-te em mim
tremer junto ao teu corpo
beijar teus lábios demoradamente
descobrir o teu gosto
com meu corpo inteiro
fomos sombras ocultas
cheias de movimento
desejos penetrantes e agitados
fomos nós num momento
da duvida que sonha a certeza
o desequilíbrio na infame consciência
a noite fez-nos sentir
o silêncio vestido de branco
a ausência irreal
em forma de sonho
viajamos juntos em sentimentos
e o teu corpo fundiu no meu
de alto a baixo
o suspiro violento
numa voraz paixão
que nos alimentou as veias
da noite que cresceu como louca,
brotavam palavras, nas entrelinhas
um intenso amo-te
no dueto de quem ama
a noite acordou-me
abandonou-me sem sonhos
tu não te encontravas lá
só a cama, branca, amarrotada...
H2O
és símbolo químico
que brota da terra
água fresca tatuada na rocha
dás vida à vida
discreta quando habitas nas nuvens,
no horizonte és energia
e fonte do ser.
ouves-me nos desejos
da palavra que não é escrita
circulas no meu sangue e vibras,
deixas que te sinta no coração.
imóvel olho-te
mostras-te rainha no mar,
princesa encantada no rio
que aquece a alma, nos lagos
da tua voz escorrem
hesitantes ternas sombras
olho a tua tonalidade
sinto o desperdício da humanidade
hoje és lágrima
no meu rosto...
Silêncio
bate à porta o silêncio, mando-o entrar,
nas paredes, as sombras reflectidas por um candeeiro de mesa, tomam cor. arrepio-me, sinto frio. cinzento, o silêncio senta-se ao meu lado, segura as minhas mãos gélidas e roxas, sente o meu medo e acaricia-me.
descubro nas sombras, um rosto delineado, parece-me o teu, com os olhos cheios de brilho, num tom esverdeado.
és tu o silêncio!
o silêncio que escuto e me abraça.
irrompem no meu corpo palavras tuas, misturadas com o tiritar do frio que há dentro de mim.
entramos no nevoeiro dos sonhos, eu e o silêncio, de mãos dadas perseguimos um rasto de luz, construído de objectos de um tempo que cresce.
procuro esse tempo, a luz do teu olhar mostra-mo murcho, disforme e carregado de sentires. flutuamos unidos, no crepúsculo embriagado das noites de ninguém. pressenti nos teus gestos o quanto amei e embalamo-nos a dor sem medo de nos destruirmos.
fico para sempre ligada ao silêncio como um pacto de sangue, alimentamo-nos de secretos desejos.
o momento
escutei a tua voz, dentro da melodia
chegou transparente, agarrada à emoção
foi arte pendida num mistério precioso
golfada fresca num trabalho de beleza
foi matéria atenta,
júbilo inesquecível.
potência da razão resplandecente
veio abraçada às palavras,
ritmada, pausada,
foi símbolo delicado que fez luz,
loucura desabrochada de esplendor
viajou triunfante nos textos
sem medos, onde a música se fundiu
até à dilatação no éter do fascínio
irrompeu ramificada
na inocência dos sentires.
debruçou-se inundada
sobre o leve peso dos sonhos,
reclamou à sabedoria
a teia dos gestos etéreos
foi profunda, misteriosa, tocante..
a tua voz vibrou
fez crescer a palavra dita!
(Este poema foi dedicado ao "Lugar aos Outros" do Estúdio Raposa)
Vida
o dia chegou puro.
os olhares falavam num silêncio
onde as palavras tinham todas um nome
e a eternidade se fechava sobre um corpo
parado nas águas, entre os espaços
para assistirem ao nascimento das árvores
o grito do verão ressoava entre formas mudas,
delicadas, impregnadas de delírios imaginários.
alguém parte o silêncio e o transforma
em sons vergados, sensíveis às palavras vivas,
atrás fica uma vida, remexida desabaladamente
numa leveza, estrangulada entre dedos
olhares bailam enfeitiçados sobre as áscuas...
murmuram ao longe, frases ríspidas e frias
o vento arrasta soprando as vozes em pedaços,
agarrando a vida, que deseja invencível
lento, leve e moroso deixa respirar o dia.
mergulha na alegria suplicante da voz
onde ardem, na alma, chamas de desejo
assumido num jogo de amor único
escapa-se o pensamento, afunda-se
dentro da paixão voraz,
espelhada no sorriso dum peito aberto
o fio liga a veia, no abraço da morte
triunfante, a festa tornou-se imortal,
sufoca de júbilo,
entre palavras que passam a correr
o momento, amadurece na terra
cativo do nome que persegue...
Vem ver-me
tantas vezes te suplico dia a dia
vem ver-me mesmo à noitinha
vem e prende-me nos teus braços,
mesmo que a hora seja tardia
e estejas cheio de cansaços.
vem sentir os meus beijos e meus desejos
quero sentir tua boca
sentir tua mão na minha e teus abraços
tantas vezes te suplico dia a dia
vem ver-me amor mesmo que seja à noitinha!
gostar de ti e amar-te silenciosamente
sofrer assim calada, assim sozinha,
ouvir-te e não poder ver-te
dia e noite lentamente,
vives longe mas que importa
se amar assim é meu desejo
amar-te misteriosamente...
pedir-te para me veres mesmo à noitinha
mesmo que cansado estejas
e que a hora seja tardia
O teu rosto
vejo o teu rosto
no sorriso da água
e é inesgotável a sede
que sinto de te ver
esvazio o corpo,
num mar de palavras
limito-me sentir,
a brisa chegar em silêncio,
no início duma manhã,
que nos abrace
o mundo não parou
e num breve olhar,
peço-te ajuda
para a minha decisão
já nada existe para além
de nós!