Fátima Fernandes (Amita)
OBRA


E sobre a Água…”

Quando amanhece
fecho os olhos serenos
e no vazio procuro o som do silêncio
que ansioso me aguarda
Mergulho nas águas tépidas e cristalinas do voo
e a voz que me canta
acontece

Quão breve instante...
Não adianta!
Fogem as letras espavoridas
e se escondem tímidas
num espaço
que para já não alcanço
nem agarro

Desperto muda
silenciada e crua
pelas vozes rodeantes que me falam
da atenção exigida
da futilidade do dia
e do espanto

Então parto
para outra estória
outra vida
em breve-longa pausa

E sobre a água teço passos


História de Povo

Trôpego, desalinhado
Trazendo o peso dos anos
Metidos na algibeira
Lá vinha o Zé, esgotado
Em seu passo arrastado
Descendo a escadaria
De pedra escura e fria
Para os lados da Ribeira

"Medo? Não! O Zé não tinha!"
O consenso era geral
Na tasca do Ti Jaquim
Tão cheia de pessoal
Todas as vozes se abriam
Numa algazarra sem fim

Inda puto endiabrado
Danado p'rá brincadeira
De fundilhos remendados
Surripiava o que via
Pão, fruta, rebuçados
Tremoços às vendedeiras
E de olhar amarotado
Assobiava e sorria

Medo?! O Zé não tinha!
Clamavam a um tempo certo
Era um líder, era o chefe
Do séquito que o seguia
Quando começava a feira

Chegada a puberdade
Em abono da verdade
Justiça lhe seja feita
Não havia rapariga
Que não caísse na graça
Daquele olhar trocista
Da sua meiguice inata
A que a bondade sujeita

Ora afoito ora arredio
Sua sorte foi tentar
Tornou-se embarcadiço
Do bacalhau luzidio
No Norte que se diz mar
Entre choros e desditas
Nos lenços das belas Marias
Acenando pelo cais

Imigrou, sei lá que mais…
O seu rasto se perdeu…
De quando em vez
Uma letra aparecia
Breve e tão fugidia
Que o povo da Ribeira
Murmurava: "Talvez
Apareça nesta vida"
E foi o que aconteceu.

Na tasca do Ti Jaquim
E não sendo vez primeira
Uma interrogação se abria
Então porque assim descia
Trôpego, em desalinho
Quase sem nexo nem tino
A calçada da Ribeira
Se, medo, o Zé não tinha…


As pequeninas coisas
(Dedicado à filha, grávida de gémeos)

Mãe
Escuta a brisa que meu ventre abre
Na terra dos sonhos o canto das pequeninas coisas
De braços estendidos o enlevo do sorriso que as afaga
Aquele murmurejar de água soletrando o rio
Plácido

Mãe
Sente os dois mundos que em mim trago
Saboreando o néctar das coisas invisíveis e cândidas
Entre a música e a leveza da dança
No balanço certo das outonais cores
Em folhas irisadas e suaves

Seis meses, mãe, são caminhados
Na voz das pequeninas coisas
Sob o azul da luz e o verde dos laços


Em rosa rubra

Nos teus braços de palavras
Me enrolam carícias mudas
Qual rosa rubra despontada
Que seu doce aroma espalha
E pelo espaço perdura

Soltam-se pelas cidades, inter muros
Os pontos que no Tudo abarcam
Estilhaços esvaídos em leve fumo
Quando em ti me lês nos traços
Desprendidos, planos, profundos

Sob as longas raízes criadas
Me enfeitas e desnudas
A serenidade dos passos
O beijo que o vento permuta
Esse encontro inesperado
Num qualquer presente-passado
Feito de essência e candura

Assim me enlaçam palavras
Fragrâncias de rosa rubra


Nós ou outros

Nós, os outros, habitamos a textura
aquosa e impura da cidade adormecida
quando o negro nela se abate

Nós, os outros, abrigamos o frio
nos jornais remexidos,
aninhados no vazio dos recantos
que o cimento e a pedra calam

Somos gente sem nome nem destino
em tempo indeterminado;
andarilhos na mão que se estende,
vestidos de invisibilidade

Nós, os outros, também sonhamos
a metáfora ténue dos papeis gastos,
da vida a essência dos dias plenos
entre a existência dos muros lentos
levantados pela hibridez da hora em viragem

Assim caminhamos o esquecimento
sob a trama da luz baça da cidade


Bamboo

Impulsivas, envolventes, activas
São as palavras escondidas
No barulho líquido da memória
Palavras que pintam casos
Casos excertos de acasos
Cantigas, bailados, histórias

Repercutem por todo o lado
No branco por dentro sentido
Erosão ténue de um passado
Do tempo sem tempo onde habito

Ao longe, o fundo anilado
Me afaga e me acalma
Nos voos de contos contados -
Menina ainda criança -
Refúgio eterno de braços
Esbatidos na distância

E nos bambus coloridos
Cada nó define um traço
Das letras rebeldes, unidas
Pela força que caminha
Na memória líquida dos laços
Carinho de cor que embalo

Impulsivas, envolventes, activas
Na tela em silêncio deslizam
Sob o pincel de meus passos


Em sépia tela...

Espalham-se como planos
Em lisos, programados dias
Sob indigentes funções de cansaços

Planam… e da Graça traçam
Dizeres que a escrita contempla
Em suaves voos pelo espaço

E se fala de Amor intenso
Camuflado
Inchado no corpo imenso
Do poema que se expande
Na numerologia aberta
Indiscreta
Em desafios de um tempo
Inacabado

Do Amor se fende a Verdade
Inaceitável, crua
Quando no dorso do poema
Crescem árvores nuas
Em lava e neve cumeadas
E se verga
A menina que o trigo apanha
Indiferente ao rolo elaborado
Sobre o seu mundo de nada

E o sorriso desperta
Leve, tímido, pelo alerta
Da serena amizade
Olvidado num canto
Surdo, mudo
Em sépia tela


O fio do Tempo

E deslizamos nas palavras
Do tudo, do quase nada
Que transitam num estado catatónico
Sinóptico, lerdo, morfológico
Sob uma cândida dolência
No fio das horas sem tempo

E tecemos juntos a igualdade
Esse sentir convergente
De quem plana nas mesmas asas
Mesmo quando inconsciente

Claros e plenos nos vemos
Da distância percorrida
Da vida que vidas cria em letras
Do adormecer na praia do medo
Da aventura em defesa
E da Beleza... a sua essência.

Assim intuímos as palavras
Nos recônditos ínfimos de um solo arado
De tanto sentir semeado
Sob sorrisos serenos.
E nem nos desligamos
Na água, no sol, no vento
A Natureza de nós é parte
Calorosa e intensa



Na Sequência do Sonho

Hoje amanheci entre a incoerência do sonho e a realidade.
O eco dos meus passos passeiam sozinhos pela semi-desperta casa
onde janelas e portas abertas expandem letras em palavras
desunificadas.
Tacteio o telhado intacto pelas raízes e ninhos de longos cabelos
dos pássaros.

Talvez voe
Talvez paire
Talvez caminhe no deserto das areias que embalam
Ou me quede pelo silêncio ou pelo nada
Se de ninguém o eco dos passos são parte

No interregno do sonho (in)acabado
bordo em azul, ervas, folhas e braços
nas árvores que me passam, em dolência, cantares
ritmados
rimados
na suave sonoridade da harpa
no timbre certo que dedos alcançam

Por vezes amanhecemos no eco dos passos…

Reajo
E sob as vozes de Mendelssohn no piano sofisticada e
de Rachmaninov no violoncelo o equilíbrio da sonata,
me banho no lago das águas límpidas e claras

Apaziguada
desfloro sorrisos em pétalas de rosas brancas
e na sequência do sonho
danço
o eco dos passos


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