Encandescente
OBRA

Palavras-caravela

Podia escrever,
(Se para ai estivesse virada ou tal coisa me apetecesse).
As palavras de amor mais belas,
Que altaneiras como caravelas,
Vogariam no mar de encontros e desencontros que é o amor.
E ficar vendo da minha janela,
As minhas,
E outras palavras-caravela,
Tomando rumo e partir.
Ou poderia em vez disso inventar um novo desporto,
E tentar da minha janela
Ou de um local qualquer do porto,
De onde partem todas as palavras de amor,
(Que sei que existe mas não onde fica).
Todas as palavras têm um porto
Onde permanecem,
Até que prontas podem partir.
E eu escondida,
Á janela ou num canto do porto,
Dispararia para as velas das palavras-caravela
Com uma daquelas espingardas de chumbos com que brincava em criança,
E uma a uma vê-las-ia afundar.
E uma a uma vê-las-ia sucumbir.
Mas sei que por cada palavra que afundasse uma outra surgiria
E não teria mãos nem chumbos,
Para todas fazer naufragar.
Ah.... Tanta palavra de amor se sente e se escreve.
Que a única paisagem que vejo da minha janela,
São palavras-caravela
Procurando um rumo,
Procurando um nome.
O nome que sonha
Quem no mar as lançou.


Um dia final de um mês qualquer

Encontraram-se num jardim num dia aprazado
Um dia final, de um mês qualquer.
Ela riu:
- Estás ridículo nesse fato. Mas era o combinado.
Ele disse:
- E tu és só camisola e gola alta. Como tinhas prometido.
Sentaram-se num banco ao acaso
Porque o acaso os juntara
No acaso caminharam
E o acaso os levara àquele banco, áquele jardim
Onde trocando vidas riram dos sucessos e riram dos fracassos
E riram dos medos e das perdas
E das esperanças e das desilusões
Ele apertado num fato caro, a viola ao lado
Ela camisola de gola alta e caneta na mão.
Trocaram também silêncios porque a amizade
Não é só feita de palavras
Mas de compassos
De dar tempo ao tempo
De sabe esperar.
Ela disse:
- Anoiteceu, está lua cheia! Como tínhamos combinado.
Ele respondeu:
- Pedi hoje à lua o brilho como te tinha prometido.
E juntos caminharam até à ponte acordada
Onde entoaram trovas à lua
Cantos de vida
Gritos de revolta
Ele de fato novo e uma viola que ria
Ela de gola alta e caneta arma na mão.
E a noite era deles, porque única, prometida
Porque era a noite de rindo de si
Rir da vida
Porque era a noite de soltar pranto
Grito e voz.
E a cidade parou para ouvir o canto
E a cidade surpresa olhou com espanto
Quem ousava quebrar o silêncio da cidade morta
Quem se suspendia na ponte que separa as margens
Entre a vida igual e a vida prometida.
E em baixo o rio era corrente contínua
Nunca antes quebrada, inalterável, monótona.
E na ponte prometida olharam a corrente
E na ponte prometida deram um passo em frente
Ele de fato novo, ela de gola alta.

E no dia seguinte a cidade viu assombrada
No rio parado que separa as margens contínuas da vida
Um fato novo que tocava uma guitarra
E uma camisola cara empunhando uma caneta e dizendo palavras
inauditas.
Nunca se encontrou quem a roupa vestiu
Quem no banco do acaso ao acaso se sentou
Quem com um passo em frente ousou rindo da vida
Rindo de si
Parar o rio
Quebrar as correntes
Estender a mão
E guardar liberdade.


Gosto de palavras fortes

Gosto de palavras fortes
Inequívocas
Sólidas
Imperativas,
Palavras murro na palma da mão.
Gosto de palavras dominantes
Avassaladoras
Não curvadas, não domadas,
Livres
E libertação.
Gosto da palavra que excita
Me replica
Me dá pica
Me arrepia
E acaricia,
Que sinto
E dá tesão.
Gosto da palavra impúdica
Lasciva quase puta
Que se apalpa que se sente
Que dá luta não se rende
Descarada
Quase gente
Palpitante
Indecente
Chocante
Surpreendente
Insubmissa
Revoltada
Vadia
Descarada…
Gosto de palavras fortes!
Porque não?


Prontos e mai nada!

Faltas-me
Como os euros na carteira
Como a água na torneira
Em dia de corte geral.
Apeteces-me
Como me apetece um gelado
Como me apetece uma Seven-Up
Ou um bom arroz de marisco.
Sei-te
De cor e salteado
De trás, de frente e dos lados
Sei-te de todas as maneiras.
Gosto-te
Porque sim
Porque me apeteces
Porque me sabes como ninguém
Porque sei o que me faz bem.
Gosto-te prontos.
E mai nada!


Poema fodido

Apetece-me escrever como o Bocage
Mandar tudo para o caralho
E que se lixem as boas maneiras
E num poema fodido
Porque estou com um humor de cão
Mando à merda a boa educação
E escrevo o que me apetece
e Dou um murro no poema
Como se desse um murro nas trombas
De quem não gosto e me chateia.
A merda que escrevo é só minha
Não sou correcta, educada, certinha
E na escrita sou
e faço o que me apetece!
Portanto mando a poesia para o caralho
E num poema fodido
Esmurro a página e a linha.
Porque escrevo o que me apetece
E a merda que escrevo é só minha!


Como odeio banalidades

Eu, que sou mais banal e vulgar que a mais banal das mulheres.
Eu, que sou tão comum que nem preciso olhar-me ao espelho,
Igual que sou a tantas outras mulheres,
Com que me cruzo e das quais não me distingo.
Eu odeio a banalidade!
Odeio as frases feitas de quem pergunta:
- Olá como está? E nem quer saber.
Odeio os bons dias, as boas tardes, as boas noites,
Ditos sem pensar,
Ou a pensar em coisa nenhuma,
Ou a pensar noutra coisa qualquer que não o desejo,
Que o dia, a tarde, ou a noite nos corram bem e sejam bons.
Eu odeio frases feitas!
Odeio as vizinhas à janela,
As amigas e amigos nos cafés, nos bares, nos autocarros,
Com vidas tão fúteis e pequeninas que dissecam as dos outros,
Que cortam a casaca dos melhores amigos pedaço a pedaço
Achando que os amigos são os melhores amigos, e nunca cortariam as deles.
Mas cortam!
E são más-línguas, maus caracteres, sem carácter!
Eu odeio vizinhas a bisbilhotar à janela!
E as pessoas que passam?
E a multidão anónima que percorre as ruas em zig-zag evitando pedintes e mãos que se estendem?
E que colam a mala ao corpo achando que ser pobre é ser ladrão.
E se aconchegam na roupa comprada na zara, ou nos mercados de rua,
Mas muito sua!
E que são caridosos, piedosos, apiedados,
Compreensivos com a desgraça alheia se não tiverem de dar um cêntimo
E a caridade for só da boca para fora!
Eu odeio a caridade hipócrita da multidão!
E os gajos?
Os gajos mesmo gajos!
Os gajos na verdadeira acepção da palavra!
Os que se sentam em esplanadas ou se encostam em montras esperando as mulheres,
As deles,
E discretos apreciam pernas e cus das outras,
As que passam.
E lambem os beiços, e coçam os tomates e pensam ou dizem:
- Esta gaja é muita boa!
Como odeio a frase” esta gaja é muita boa”!
Dita por gajos que em casa têm mulheres que nem olham.
E às quais nem falam.
E que na cama despacham sexo e mulher,
Despejando o desejo das gajas boas que comeram com os olhos.
Na rua.
Ah! Como eu odeio estes gajos!
E as gajas?
As santinhas, as pudicas, as que têm sempre na ponta da língua um:
Ai credo, um julgamento, uma condenação.
As que são contra o aborto, contra a pílula, contra a educação sexual,
Contra tudo que seja sexo!
Escrito, pintado, feito ou falado.
E quando têm “maus pensamentos” correm às sacristias:
- Sr. Padre sonhei que estava a fazer sexo oral, confessam.
Como se sexo oral fosse um pecado capital,
Esquecendo que só o peixe morre pela boca.
E lavam as mãos nas pias,
E cumprem todas as penitências,
Mas falam do sexo da vizinha que é uma descarada.
E são donas de verdades absolutas.
E nunca têm dúvidas.
E só dizem…
B a n a l i d a d e s!
Ah! Como odeio falsas santinhas e ratas de sacristia!
E eu?
Eu que sou banal, normal, vulgar, mas odeio a vulgaridade,
Eu que mando à merda quem me chateia
Eu que escrevo asneiras se me dá na gana,
E que para um sacana sou sacana e meia!
Eu odeio sacanas!
Aqueles de falas mansas e que parecem santos,
E que dão a roupa toda e pelos outros ficam em pêlo,
Mas em casa vão ao pêlo às mulheres,
E deixam-nas:
Negras de pancada,
Negras de dor,
Negras de pavor.
Ah …Se pudesse dava um tiro nos cornos desses sacanas!
E de outros:
Os abusadores, os ladrões de inocências,
Os que roubam infâncias e semeiam pesadelos.
Esses castrava-os a todos!
Os do passado, do presente e do futuro,
Já que a justiça não castra senão a esperança de justiça!

Eu, que sou mais banal e vulgar que a mais banal das mulheres,
Eu, que por fora ninguém distingue ou olha duas vezes ao passar.
Odeio banalidades!


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