Daniel Camacho
OBRA

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(R)Evolução

Decoro o percurso dos meus dias,
o discurso inerte do meu tempo,
recordo a solidão do quarto,
a rouquidão das linhas do meu espaço
e mordo a amargura dos nervos
que abrigam os sonhos
e os monólogos
que a cada Primavera...
...se renovam!


Máscaras

Prefiro fingir que não vi o fim da humanidade,
esconder-me no sonho desumano de máscaras idolatradas,
perder-me no vento que sinto soprar em cada esquina da cidade,
naquele silêncio que se ilude e se arrasta pelos muros do disfarce
como que fingindo não sentir as dementes vertigens
que jorram sufocadas nos peitos virgens,
nos cemitérios urbanos que choram ironias aos soluços
e temem a morte que a mente humana um dia desenhou.
Prefiro balançar noutra sala mais selvagem,
suspender-me sob um feixe luminoso de esperança
num desafio carpido no prisma oculto de uma noite que se cansa
e que adormece o olhar lançado sobre o mar e suas chamas de coragem.
Prefiro vencer o ódio que tresanda em cada roupa,
em cada boca...louca,
e suspender os medos que passeiam nas ruas eternas do amanhã
aos empurrões, sem descanso, repetidamente a toda a hora no ecrã...
...que se diz mágico, dia após dia,
sempre que algo trágico principia!
Prefiro colocar a máscara e murmurar por gestos,
para não ferir o lado ignorante e inocente
desta ilusão que cabe na minha mão cheia de restos
escondidos numa fresta de caminhos rectos e pedras firmes.


Beijo

Um beijo despe a valentia,
afasta o medo que há em nós,
vagueia no desejo ardente que nos guia
que nos tira os pés do chão
e nos dá um nó na voz.

Um beijo afaga a alma incompleta
ampara as margens adormecidas na dor
penetra o íntimo amor que desperta
na pétala vadia de uma flor.

Um beijo rompe as ruas desertas
amansa o olhar que chora incerto
lambe as pingas da chuva e cava no pensamento
que rouba tempo ao tempo.

Um beijo adoça o vento leve que nos cobre o rosto
acorda a noite perdida de desgosto
e algures no meio do nada,
rompe uma estrada.




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