Casimiro de Brito
OBRA


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Nu, na minha cama de hotel,
deixo-me invadir pela memória do mel.
E choro. Choro porque não posso beber
as tuas lágrimas. Choro
porque não podes lamber
o meu sal.


Poderei desnudar um pouco mais
o teu corpo nu? Poderei descalçar o teu pé
que pousa descalço?
Dizer-te outras mil vezes esta canção furtiva
que nunca mais acaba? Poderei dançar cantar
no chão onde me decantei noites inteiras? Amar-te
se não sei amar apenas derramar
as últimas sementes desta pedra
que tanto voou? Poderei escrever de novo
na tua pele, e apagar com lágrimas
o texto que vem de longe? Beber
na boca da tua boca
a dor que me trazes, a alegria
que não cessa de doer? Inscrever
o teu sangue nas nuvens que passam
dentro de mim? Ler reler
o arco-íris nos teus olhos,
o líquido sabor de argila
entre as tuas pernas? Poderei
oscilar entre a luz e a sombra
se mais não sou do que uma haste cega
dentro de ti? Poderei curvar-me
ainda mais
se abraço o chão e bebo na fonte? Escavar
o já escavado? Recolher a cinza
do coração enamorado? Elevar-me
se já toquei no céu?


Amando noite e dia num hotel de Madrid
cheguei à conclusão que só o amor pode
decifrar o segredo; que só no sexo
se aproximam a música e a música de corpos
habitados por essa poesia que vem do fundo.
O amor é a entrega assassina
que não se deixa fixar: a luz que vem do abismo
e que nunca poderei colher,
eu que já estou noutro lugar. Fodendo
até cair para o lado
curámos o que estava doente, o teu corpo menino
e o meu cadáver cansado. Exilados
da Via Láctea, e dentro dela,
deste vaso louco onde se misturam
os vivos e os mortos, todos em busca
da luz. A minha luz
foi vir-me quando me julgava
cego e vazio. A tua luz
foi quando abriste o que julgavas
para sempre fechado.


Entro paciente e afundo-me no reino
da mãe. O barro mais antigo
brilha no teu sexo que se abre escuro
ao meu desejo — à ternura, ao furor que busca
o caos. Só em ti, que não temes a noite nem a saudade,
me encontro. Abres a húmida concha
e salto para dentro do lume
da primeira casa. Deixo à entrada
a angústia de quem vai morrer.


A luz trocada em olhos que ficaram
subitamente cegos, e depois as palavras,
cautelosas, dizendo a seda
dos nossos corpos sós. O desejo
foi polindo em silêncio
um fruto em busca da sua maturação.
A teu lado me deito e bebo a água
que tu me abres, obscura
e onde me perco e ardo e tudo.
Aqui tens o meu corpo cheio de mundo.
Amar-te é viagem que não se acaba
e contigo vou, para o alto e para o fundo.


FUGA

Alto estou a teu lado
no verão deitado

Alto no esplendor de possuir-te
e trocarmos silenciosamente
os frutos mais fundos da morte

Como se navegasse um rio
por dentro
we na tua fragilidade encontrasse
a minha força


O problema não é
meter o mundo no poema; alimentá-lo
de luz, planetas vegetação. Nem
tão- pouco
enriquecê-lo, ornamentá-lo
com palavras delicadas, abertas
ao amor e à morte, ao sol, ao vício,
aos corpos nus dos amantes -

o problema é torná-lo habitável, indispensável
a quem seja mais pobre, a quem esteja
mais só
do que as palavras
acompanhadas
no poema.


Havia que passar para o outro lado. Então Lao Zi
pegou no seu poema e pagou, com ele, a sua portagem.
E continuou a caminhar até desaparecer.
Passaram mais de dois mil anos e ainda se vê
a sua vida. O meu poema
nasceu da leitura continuada do Dao De Jing.
Cada um dos seus fragmentos começou por ser
uma gota de água bebida nesse rio,
uma ideia, uma imagem, uma metáfora «oferecidas»
pelo poema de Lao Zi. Dessas gotas
quase nada subsiste, nada de letra, elas desenvolveram-se
em poemas que depois foram sendo polidos (evaporados)
até se tornarem noutra coisa, anos a fio de trocas
entre o pleno e o vazio, entre a casca
e o conteúdo, entre o texto desejado e o texto
possível — o doloroso prazer da escrita.
As minhas visitas ao Dao não acrescentam
grande coisa. Mas precisava de pagar
a minha portagem.


Um caminho rigoroso de silêncio

Branco no branco, cantou
Bashô. Despes o vestido,
dispo o teu corpo.
A tua sombra na parede
branca. Sorris.
Apagas a luz.
Sabes que a tela da tua pele
me vai iluminar.
Debruças-te no meu peito:
sabes que o teu hálito me vai
acender. Branco
no branco.
Derramados
um no outro. Quem é luz?
Quem é sombra?
A cotovia
começa a cantar.


Exílio
Berlim, 1969

Quando eu nasci plantava Brecht
No silêncio do exílio um castanheiro
Ao canto do pátio. O medo – crisálida
Seca – instalava se
No rosto anónimo
Dos meus contemporâneos. Cesare Pavese
Preparava minuciosamente
O seu suicídio. O velho continente
Apodrecia
Ao som cavo da guerra. Apodrece. A Causa
Comum: em prisões, fábricas medievais, cinza
Clandestina. José
Gomes Ferreira (Quixote sem lança de Portugal)
Fazia quantos anos sou agora: e cantava
Em noites de insónia insubmissa (…)
As lágrimas dos outros (…), a solidão quente
Como a camaradagem do vinho!
Dentro
Da noite lusitana

Desenvolve se o comércio de músculos / praias / minas
Coloniais……………………………….No ano anterior
Federico havia sido assassinado
Em Granada; ouvia se ainda o seu canto / pranto
Por Ignazio Sánchez Mejías: Lo demás era muerte
Y solo muerte

A las cinco de la tarde. Vendiam se a pataco
As últimas dignidades. Contemplava se
O derramar do sangue
Em guerras imperiais: ontem, hoje…………Pouco,
Muito pouco se aprende
Com a morte dos poetas: o exílio / a complacência
Dos poetas. Outras mortes mais austeras
(A cólera amadurece)
Varrem este mundo velho. Ah mas a memória
E o canto
Permanecem no pó dessas mortes
Silenciosas………………………………………………………..…


Memória do primeiro de maio

Um país iluminado por ruínas nunca repousadas
Em teus olhos cegos subitamente
Rasgados / um país distendido
Entre velhas colónias emancipadas
No ardor da guerra / um povo libertando se
Do seu ovo de silêncio amor cifrado & usura –
Tubérculo apodrecido
D’onde foi banido
O dente cariado da ditadura…………………………………

O mar foi o mar na praça pública a luxuriante
Vegetação / a festa solar / a luz crua
Do exílio e da morte / o espectáculo
De um povo (águas
D’abril) a quem foi devolvido
O dom da fala / a mística
Da revolução. Ouve se
Por toda a cidade
O grande coral da liberdade…………………………………


Objectos de culto & personal
O interrogatório de Rosa Luxemburgo

O interrogatório
De Rosa Luxemburgo
Durou apenas algumas horas. Ela sabia
Tão bem como os seus carcereiros
Que palavras ali já não existiam. Caída
Na batalha
Contra o nervo vital do Estado; banhada
Em sangue
E quase sem sentidos,
Rosa,
Frágil camarada,
Pediu aos caçadores seus assassinos
Agulha e linha. E, silenciosamente,
Com uma pistola apontada à têmpora,
Coseu a bainha da saia que se encontrava
Descosida. Pouco depois
O cadáver
Foi lançado à água.


Onde se acumula o pó?

Aventuras do corpo
em seu discurso roubado alimentado
por raízes traduzidas pelo sol –

Aí se desfazem os cúmulos
do pó: restos da infecta serpente
do conhecimento –

Fúria canina onde se ouve
o mínimo som ou cheiro ou sombra
da pele quase mineral –

Viagem minéria por mim
próprio: sou esse que escreve
como quem se deita para morrer –

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