Carlos Vaz
OBRA

pó sobre piano
 

na oxidação das horas brancas
solidifica-se o enfiamento dos dias
como linhas que sustentam no ar
os corpos húmidos das coisas que em sonhos tomam poses de voo
 
movidos pelo egoísmo
os fantasmas cristalizam-se, descendo dos tectos,
sentando-se em cima dos móveis
para que os corpos obtenham o peso consumível das coisas
 
coberto pelo lençol
o líquido enviusado desaparece
e a nascente dos sonhos com que alimentávamos o passado
toma o sentido correcto das coisas
ao transformar-se na película de pó, no último piano
em que nos deitarmos
in Afectos (antologia poética)


Sem título

 
o monstro vive nos limites do texto
metade homem pela metade
da metade de um monstro

a metade que é o monstro que aceita o homem
é o corpo que não pode ser
por conter o medo de acolher a
metade que lhe sobeja:
corpo sem rosto / rosto sem corpo
corpo sem rosto / rosto sem corpo

a metade que é homem que aceita o monstro
é a metade do homem que acolhe
e reconhece o medo do escuro
e une o rosto ao corpo e o corpo ao que é rosto
e chama à metade:
a metade de uma flor.
In A Casa de Al’isse (romance de ensaio)


Rio Caldo / Gerês

as árvores de água nascem
no revés da cor que lhes falta

o negativo irresoluto arrasta
as imagens que crescem
para o seu fundo
_____________

porque não pousarão os peixes nos seus ramos?


poema 20

os lobos mansos vivem em rebanho
para se protegerem

os lobos mansos não são lobos
são mansos
e vivem no silêncio prateado
vivem morosos, na preguiça de um pasto lascivo
sob o olhar atento dos seus predadores
os cordeiros


por entre as coisas da sala
há uma jarra cheia de água

os objectos que a perpassam
tomam um corpo arredondado a meio e esguio no alto
encerrando nela uma forma geometricamente descoordenada de existir

tomo-a como o centro de uma circunferência
e giro em redor como só os satélites o fazem
entre mim e as coisas, jogam-se, assim, novas formas de ver
o mundo que está no mundo

no lado diurno da circunferência
habitam os rostos e os objectos que me observam
aprisionados como os génios em lamparinas
ou secretas mensagens à deriva numa garrafa

no lado nocturno, habitam os olhares dos cegos
que, como borboletas, avançam na espiral do jogo
até as sombras da incerteza e as imagens descuradas do real
encherem o copo do poema


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