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Carlos Poças Falcão OBRA |
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“COMPLETAS (UM PROGRAMA)”
Proferia sem cessar frases completas
não fosse a realidade bater-lhe sem sentido
Frases completas, tensas, dirigidas
de um caos a outro caos
tecendo o envoltório magnífico de um homem
As frases não cantavam nem tinham de cantar
apenas sustentavam em arco a coisa imensa
a grande ruína de tudo o que aparecia
Era um eremita de tipo moderno
orando na corrente dos transportes públicos
erguendo nas descidas metropolitanas
passando e abençoando desertos suburbanos
Era necessário compor frases completas
não fosse a realidade confundir-se com a mentira
Jurou chegar ao fim numa evocação contínua
teimando na palavra como o sol teima na luz
mas sem poder algum, nem talento, nem usura
apenas real, como um rei no seu exílio
Se bebia uma cerveja num último reduto
ou se atravessava em grande perigo uma avenida
eram frases quase santas aquelas que o salvavam
tensas, dirigidas, como um arco de guerreiro
Pois que todos sofriam de uma voz entrecortada
de um coração disperso num olhar em fragmentos
ele era o eremita transportador do manto
dessa mortalha leve que a inteligência outrora amava
Não é o insignificante o inverso da verdade?
E assim vestindo o mundo ia ele sem descanso
envolvendo-o nas faixas de defunto ou de menino
segundo as exigências tão claras do sagrado
Anónimo, perdido e cheio de esperança
agora é outra hora, a do silêncio, a melhor hora
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