O fundo das águas 
Adensam-se as formas vagas, surdindo tumultuariamente de não
sei quê desesperado ainda como o mundo dos princípios; adensam-
-se os elementos, os vendavais, a aspereza do ferro, do cálcio, da lava,
a fereza biológica dum fundo que não tem outro destino senão
explodir.
Estou a sentir na sombra: um rumor de larvas e sementes, o
amor de que sou capaz pela vida e pelos outros; o esboçar dalguma
flor negra acordando, um ritmo de versos; caprichos da botânica ou
desvios da alma; o vento da harmonia submerso entre caules sanguí-
neos e rugosos; a breve tempestade das conchas e dos peixes, a grande solidariedade que vos devo.
O que me espanta é a aceitação de cada dia. E desta angústia
vou tecendo as palavras, desta água salgada e doce como as lágrimas
e o sangue. Tecendo escuramente as palavras.
Só, em meu quarto, escrevo à luz do olvido;
deixai que escreva pela noite dentro:
sou um pouco de dia anoitecido
mas sou convosco a treva florescendo.
Por abismos de mitos e descrenças
venho de longe, nem eu sei de aonde:
sou a alegria humana que se esconde
num bicho de fábulas e crenças.
Deixai que conte pela noite fora
como a vigília é longa e desumana:
doira-me os versos já a luz da aurora,
terra da nova pátria que nos chama.
Nunca o fogo dos fáscios nos cegou
e esta própria tristeza não é minha:
fi-la das lágrimas que Portugal chorou
para fazer maior a luz que se avizinha.