Blaise Cendrars
OBRA

"Torre"

1910
Castellamare
Jantava uma laranja à sombra da laranjeira
Quando, bruscamente...
Não era a erupção do Vesúvio
Não era a nuvem de gafanhotos, uma das dez pragas do Egipto,
Nem Pompeia
Não eram os gritos ressuscitados dos mastodontes gigantes
Não era Trompa anunciada
Nem a rã de Pierre Brisset
Quando, bruscamente,
Lumes
Choques
Ressaltos
Faísca de horizontes simultâneos
O meu sexo

    Ó Torre Eiffel!
Não te calcei de ouro
Não dancei contigo em lajes de cristal
Não te destinei ao Píton como uma virgem de Cartago
Não te revesti do peplo da Grécia
Nunca te pus a divagar no recinto dos menires
Não te nomeei Vara de David nem Madeiro da Cruz
Lignum Crucis
    Ó Torre Eiffel
Fogo-de-artifício gigante da Exposição Universal!
No Ganges
Em Benares
No meio dos piões onanistas dos templos hindus
E dos gritos coloridos das multidões do Oriente
Inclinas-te, graciosa Palmeira!
És tu quem nos tempos lendários do povo hebreu
Confundiste a língua dos homens
Ó Babel!
E uns mil anos mais tarde, foste tu quem caiu em línguas de fogo sobre os
Apóstolos reunidos na tua igreja

No alto mar és um mastro
E no Pólo Norte
Resplandesces com toda a magnificência da aurora boreal da tua telegrafia sem fio
As lianas enredam-se nos eucaliptos
E flutuas, velho tronco, no Mississípi
Quando
Se abre a tua goela
E um caimão prendeu a coxa dum negro
Na Europa és um dacafalso
(Queria ser a torre, pendurado na Torre Eiffel!)
E quando o sol se põe atrás de ti
A cabeça de Bonnot rola na guilhotina
No coração da África és tu quem corre
Girafa
Avestruz
Jibóia
Equador
Monções
Na Austrália foste sempre tabu
És o croque que o capitão Cook usava para guiar o seu navio de aventureiros
Ó sonda celeste!
Para o Simultâneo Delaunay, a quem dedico este poema,
És o pincel que ele banhava em luz

Gongo   tantã   zanzibar   bicho da selva   raios-X   trem expresso   bisturi   sinfonia

                    És tudo
                    Torre
                    Deus de antiguidade
                    Besta moderna
                    Espectro solar
                    Matéria do meu poema
                    Torre
                    Torre do mundo
                    Torre em movimento

(tradução de Filipe Jarro)


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