Beatriz Barroso
OBRA



Invento-me...

Invento-me neste desejo de te abraçar...

Invento-me hera, planta trepadeira,
agarro minhas gavinhas,
minhas expansões, com força,
em tuas estacas, para me poder à terra fixar...

Invento-me abelha, insecto,
Apenas para invadir a tua flor,
Que nasceu de meu desejo,
Para em teu mel, esse néctar,
a minha sede eu poder saciar ....

Invento-me leoa perdida de seu cio,
À procura de um trilho, um sinal, rasto teu,
Para que na floresta da vida,
Eu te possa encontrar...

Invento-me vento, Nortada, brisa, aragem,
Para de forma empolgada,
Agitar teu rio, ondular teu mar...

Invento-me, nestas todas metamorfoses
de ser eu própria, que trago silenciadas no meu espírito,
E ensaio-me assim, neste ser,
Nestas mil formas adoptadas,
Só porque te encontro ao inventar-me,
Mas porque te invento somente a ti!


“Escuta o que te prometo de mim “

Pára,
não faças nem um movimento,
não digas uma só palavra,
respira muito levemente,
para poderes escutar,
o que eu te prometo de mim.

Pára,
não mordas o tempo,
sossega esses ímpetos,
não queimes essa chama de vida toda,
que te faz arder o corpo,
que agilmente escapa de ti.

Serena,
que a minha alma,
já vai bem perto da tua,
quase te conta os segredos,
que há tanto trago comigo,
e que ainda eu não perdi...


INÊS - UM NOME, UMA MUSA

Sereno é teu nome,
É belo,
Lembra uma nossa rainha.
Mulher com carisma,
Musa de poeta,
De muitos,  amiga.
Tu te  partilhas,
Tu te entregas,
Tu ajudas,
Tu nos completas.
Tu te inventas ainda menina,
Sempre que a realidade te castiga
E o sonho te alberga.
Adoras a arte,
Fazes o culto da poesia.
Tu és  senhora do teu tempo,
Não consintas que ele como um polvo forte,
te aperte nos seus tentáculos,
TE ASFIXIE A VIDA.
Inês, é o teu nome,
És a escolha perfeita,
Daqueles que te elegeram,
como sua companheira.


Poema de Amizade   
  
Se eu fosse uma nuvem,
Branca,
Leve,
Iria com o  vento,
Para junto de tua janela,
Para te convidar a um  passeio,
Para te levar a um sítio belo,
Para veres o mar e  sentires o seu cheiro,
Para veres os campos cobertos de  verde,
E de flores lindas com muitas cores.
Se eu fosse  nuvem,
Ensinar-te-ia a voar,
E a sentires a vida de outra  forma,
Como aquelas aves migratórias,
Que buscam um lugar para  viver,
Que partem rumo à aventura e ao sonho,
Apenas para se  sentirem felizes,
Para poderem sobreviver.
Se fosse  nuvem,
Eu me regozijaria por te mostrar,
Tanta coisa  bonita,
Que fico com muita pena,
Por não me poder  transformar.
Por ter que penar por te ver,
Vestida de  alma às  vezes sofrida,
Sem  daqui nada poder  fazer,
Senão dizer-te  que sou tua Amiga.
beatriz  barroso


 "Faz tempo"
 
   Faz tempo,
Penoso tempo  de ausência,
Sinto uma espécie de degredo,
Não sei se é  culpa minha ou tua,
Por certo, apenas da vida.
Faz  tempo,
Já nem eu sei bem ao certo quanto,
Estou perdendo  a memória,
Que vai parecendo curta,
Ou será que é pura  fantasia?
Faz tempo,
Longo tempo de tua ausência,
À  medida que o tempo passa,
Há uma saudade que dói e  castiga,
Ou será que ele brinca comigo,
Para me testar a  fibra?
Faz tempo,
Não,  não é mera aparência,
Eu sinto que neste  momento,
Ele me condena,
Porque me tira a tua  companhia.


 "Instinto de  Poeta"
  
 Quantos  segredos são levados pelo vento,
E não chegam a bom  porto.
Quantas palavras são inventadas pela  alma,
Sem que sejam agarrados  os sentimentos que estão por detrás dela,
Somos  fruto de nossos enganos,
Somos heróis de nossos  intentos,
Ser poeta é deixar gritar a  alma,
Em  silêncio.
Ser poeta é viver sem medo de  penar,
É ter instinto  próprio,
Porque só ele sabe  escrever,
O que o sentimento  castiga!


"Convicção"
 
 Esta ânsia de infinito,
que me faz querer tirar o céu  aos anjos,
Esta náusea que me nasce das entranhas,
Por sentir esta minha incompletude,
Este  degredo da alma que eu tenho que vencer,
Esta leveza insustentável  que tenho que superar,
Vinda  desta meia parte de meu ser,
Que não me ajuda a  crescer,
Este arrepio que sinto na coluna pelo infame,
Que  meu quotidiano tem que ver,
Faz-me renascer e encarnar  poeta,
Faz-me escrever palavras de combate,
Lutar, para  vencer as batalhas que a vida me
impuser,
Rasgar meu mundo e  inventar mais de mim enquanto eu puder.
Porque eu quero e pugno por  sobreviver!


“Quando ela passa”
 
Seu rosto tem harmonia,
Seu sorriso sugere simpatia,
Seus olhos iluminam-nos o Mundo,
Só para  o podermos espreitar.
 
Os seus cabelos são  de sereia,
São um desafio ao olhar,
Parecem a rede de um  pescador,
Que entra pelo mar dentro,
Para o peixe aprisionar.
 
Prisioneiro de seus encantos,
Fica o incauto passageiro,
que em seu caminho se quis atravessar.
 
Entrega-nos o sabor a vida,
Fica em nós o cheiro de sua alegria,
Quando ela passa, fica  magia no ar....
À Inês (dedicatória)


  “A pedagogia da dor “
 
A dor educa a vontade,
A dor domestica a razão,
A dor transforma um coração.

A dor ensina a dar valor,
A dor ajuda a crescer,
A dor cria união.

Há um sentido pedagógico na dor,
A dor não é contrária ao ideal de criação.
A dor é estigma, mas não anula o ser.

A dor é, para mim,  morrer.


Venho de alma desnuda,
Chego  desta forma despida e alva,
despojada  de preconceitos,
sem entraves, nem barreiras,
apenas me quero confinada,
ao que tu me inventes.
 
Deste-me a tua alma,
Para melhor eu te conhecer.
Vieste serena, iluminada,
Como se trouxesses uma aura,
Um feixe de luz, de cor divina,
Para que  pudesse eu assinalar,
O que ainda me falta  percorrer,
O remanescente deste caminho,
Com a  marca das pegadas da tua,
Que assinalam hoje esta nossa encruzilhada.
 
Com este propósito apenas, venho agora,
Segura de minha clarividência.
Entregar-te o que ainda me  resta,
Para que não fique vazio de sentido,
Aquilo que de mim ainda te presta.


"Silêncio"

 Diz-se o silêncio,
Não são precisas palavras,
Fala-nos por si e no meio de tanta gente,
Faz-nos sentir quanto é premente,
Vencer as barreiras que nos aporta o tempo...

Diz-se o silêncio,
Impõe-se, belisca-nos, agita-nos...
Porque nos  mexe na alma e nos morde o corpo
Ao trazer até nós  a premência, a urgência,
que nos impele ao outro...

Diz-se o silêncio,
Ele  é de ouro ou de prata,
Porque nos eleva,
Mesmo quando a saudade mata,
Sobe em nós a temperatura da consciência,
Ao  penarmos  pela  ausência,
Mas sabemos  que há uma memória  que cura
e uma  esperança que colmata...


“EU VI
 
Eu vi o Mundo,
Que de muito contraste é feito...
 
Nos olhos de uma criança,
Nas asas de uma borboleta,
Numa praia deserta,
Numa cidade iluminada,
Numa boca amordaçada,
Num rosto com mágoa,
Nas linhas de um jornal diário,
Numa mensagem de correio,
Numa paragem do metro,
Num semáforo,
Numa esquina,
Num beco sem saída,
Algures no tempo e num lugar,
Eu vi o Mundo, eu vi .
De tanta coisa que eu já vi,
Uma lição eu aprendi,
Nada no Mundo é perfeito,
Mas valerá a pena, por certo,
Estar vivo e sentir-me um ser eleito,
Por viver com convicção,
Por sentir que a  fé e a alegria
Não morrem no meu coração,
Por  fazer alguém feliz,
Por ter uma família amiga,
Por ter saúde e lutar,
Por uma  vida honesta e  sadia,
Por uma noite bem dormida,
Ou simplesmente,
Por poder hoje  espreitar a lua,
Da janela de meu quarto,
Numa noite de luar...
Basta-me  apenas por isso,
Abrir os olhos e  as portas  da alma,
Deixar o sentido da  vida,
Entrar por meus poros, bem desperto,
Saber-me num macrocosmos incompleto,
Mas saber e ter  a certeza,
Que bem dentro do pequeno mundo que eu sou,
Vive a imagem de  um Mundo melhor,
E que não  quero este  sonho jamais desfeito!


De mansinho ...

Cheguei até ti de mansinho,
Como quem timidamente
Encontra a outra margem do seu rio,
Após uma longa caminhada.
Porque vi a tua mão estendida,
Uns olhos que me afagaram,
Que me fizeram sentir a vida,
Que vazia de sentido,
Já quase por si não dava.

De mansinho,
Abri as janelas de minha emoção,
Para me sentir mais viva,
Escancarei as portas do meu coração,
De forma não contida,
E, ganhei o mundo num instante,
Porque caminho agora,
Sempre de uma à outra margem
Em que me espraio,
No tempo e no espaço
Apenas porque já vou contigo...


“Diálogo com o Mundo”

Ó Mundo,
Chegámos a ti,
Trazendo as mãos vazias,
Apenas cheias de sonhos,
De desejo de infinito.
De  Amor,
Não,  aquele Amor prazenteiro,
Corriqueiro,
Que se apregoa,
Mas o Amor universal.
Total,
Que nos eleva,
Nesta deriva de nós,
Que tantas vezes nos faz perder,
Tal a ânsia que em nós trazemos,
De um dia,
O podermos ganhar.
 
Sonhamos,
Ó Mundo,
Voar com ele,
Para o lugar mais alto,
No qual  poderemos vislumbrar,
Um quotidiano menos feroz,
Numa paisagem da vida,
Que queremos feita,
De olhares que acariciam,
De rostos que nos sorriem,
De mãos que nos afagam,
De corações que nos enternecem,
Com sua simpatia,
E que são, afinal,
O  espraiar da fraternidade.
 
Sonho, ó Mundo,
Poder ver  minha poesia,
Transformada,
Num  hino à alegria,
Numa oração à vida,
Apenas para que ganhe força,
Esta ânsia que nos remete a todos,
À luta pela paz,
À conquista da harmonia,
E que nesta busca,
Nos ampara a  fé,
Que nos faz acreditar,
Que ele será nosso guia,
Que a nós, ó Mundo,
Só o amor irá governar.
 
E num abraço profundo,
Incluiremos o Amor,
Neste diálogo que entre eu e tu,
Ó Mundo,
Agora queremos eternizar.
Só assim,
Beijaremos as estrelas,
Escutaremos  a mais bela sinfonia,
Que apenas com o Amor,
Se concerta,
E que em surdina ecoa,
Pelos recônditos caminhos,
Que já sem espinhos,
Nos vão por inteiro,
Percorrendo  a alma...
 
Leva-nos,  o Amor.
Feito agora nosso companheiro.
Mas pedi-lhe,
Que primeiro,
Nos matasse a fome,
Nos trouxesse a paz
Nos reinventasse.
Porque não quero mais,
Sentir-me envergonhada,
Por esta humanidade,
Que em nós se enforma,
Doentia e inglória,
Trazida pela memória dos tempos,
Enquanto ganha asas,
A  nossa história...
 
Acredito,  ó Mundo,
Que o Amor vai  escutar nosso pedido,
Simplesmente porque urge.
Porque  está moribundo,
Quase desfalecido,
Nosso precário destino...

Amor meu que me chegaste,
No outono da vida,
Por
que razão me deixaste,
A  estação de verão,
Despida de teu colorido,
Vazia e sem sentido,
Se o que querias amor meu,
Era aqui perto chegar?
Tinhas feito um aceno,
Tinhas-me dado um sinal,
Prontamente para ti,
Eu tinha corrido,
Se eu soubesse que eras o tal.

Amor meu,
Por
que razão te atrasaste?
Por pouco estava de partida,
Como mulher assumida,
Levando apenas como companheira,
Minha alma solitária,
Guiada na dianteira,
Com o símbolo da liberdade,
Que gravado numa bandeira
Eu trazia firme na mão.

Amor meu que me chegaste,
Não sejas cruel,
Nem banal,
Fica para sempre comigo,
Pois que eu te dou abrigo,
Aqui.
Junto do meu coração.


Invento-me

Invento-me neste desejo de te abraçar...
 
            Invento-me hera, planta trepadeira,
            agarro minhas gavinhas,
            minhas expansões, com força,
            em tuas estacas, para me poder à terra fixar...
 
            Invento-me abelha, insecto,
            Apenas para invadir a tua flor,
            Que nasceu de meu desejo,
            Para em  teu mel, esse néctar,  
            a minha sede eu poder saciar ....
 
            Invento-me leoa perdida de seu cio,
            À procura de um trilho, um sinal, rasto teu,
            Para que na floresta da vida,
            Eu te possa encontrar...
 
            Invento-me vento , Nortada, brisa, aragem,
            Para de forma empolgada,
            Agitar teu rio, ondular teu mar...
 
            Invento-me, nestas todas metamorfoses
            de ser eu própria, que trago silenciadas no meu espírito,
            E ensaio-me assim, neste ser,
            Nestas mil formas adoptadas,
            Só porque te encontro ao  inventar-me,
            Mas porque te invento somente a ti!


“Rosto de Mulher”
 
Há qualquer coisa no rosto
Desta mulher ainda menina
Que nos intriga e cativa,
Quando ela por nós passa.
Faz-nos  sorrir à vida,
De forma leve e serena,
Será uma mulher de sonho,
Uma musa de poeta,
Ou uma sereia  perdida,
Trazida por uma onda do mar
do Mundo  da Fantasia?
 
Seja o que for, que importa agora?
Onde quer que ela esteja,
Fica o mundo com muito mais graça!


“Mulher”
 
Mulher que nasceu,
Mulher que cresceu,
Mulher que se inventou,
Mulher que se perdeu,
No tempo que hoje a recria.
 
Mulher que ama,
Mulher que se divorcia,
A qualquer hora,
Em qualquer dia,
De qualquer modo,
De ser uma mulher infeliz.
 
Mulher que não matou a menina
Por quem se viu construída,
Na bruma já difusa dos tempos.
Mas, hoje Mulher madura na forma,
Aprende a ser cativa de nada!


“Eu sou um Gato”
 
 Eu sou um  Gato, um Senhor Gato,
Dono  de minha felina vaidade,
E do meu território emprestado,
Que é a casa onde eu moro,
Com a minha querida dona,
Sempre em boa companhia.
Passo assim a  apresentar-me,
Devo fazê-lo primeiro,
Para não parecer indelicado.
Mas, antes quero avisar,
Que não desperto  a desgraça,
Que é um sentimento muito feio.
Matando a vossa curiosidade,
Sem intenção  de alguma  ironia,
Sou negro, da cor da noite,
Não faço mal a ninguém,
Pois, essa coisa de mal olhado,
É no meu entender de gato,
Um pretexto, que utiliza,
Gente, muito pouco sadia.
Tenho bigodes muito longos,
Que apenas são meu património,
Não empresto a nenhum título,
A um  humano ou companheiro,
Mesmo que por caridade,
Pois ficava sem qualquer jeito.
Quanto a divinas e divas gatas,
Só em  tempos que lá vão,
Pois agora já  tenho idade,
E não consigo ser Don Juan.
Os olhos, esses, são verdes,
Têm a  cor da uva branca,
Quando está amadurecida.
E agora que me apresentei,
Lembrem-se  com carinho,
Dos gatos que como eu,
Existem no vosso Mundo,
Pois apesar de sermos  gatos,
Saibam que também somos donos,
De alguma sabedoria.
Eu sou o Gato de nome Milu,
Ela é a minha  Dona Bea.


  “AMIGA
 
De onde quer que venhas,
Para onde quer que vás,
Qualquer que seja a tua caminhada,
Chega até aqui amiúde, e vem saborear,
O doce prazer do canto que o destino,
Quer ver feito a duas vozes
E que agora nos faz chegar...
 
Bailemos, as almas em conjunto,
Deixemos soltas as amarras,
Deste barco da amizade
Que não queremos afundar,
E que sereno caminha
Pela rota da vida,
Que  em nós respira viva,
Na ânsia de se encontrar...




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