António Salvado
OBRA



PAI

Ao ler teu nome gravado
na pedra branca em silêncio
não sei que estranho momento
é este que se desenha
entre eu estar ali e a lápide.

Uma súbita presença
de contornos definidos
dá calor à pedra fria
e a mim um certo arrepio
de quase contentamento.

Comunhão que nada apaga
nesse instante fugidio
ao ler com a boca fechada
na pedra inerme calada
um nome que é meu inscrito.

(Escrito para um concurso organizado pelo blogue Porosidade Etérea sobre o Dia do Pai.)


QUE A PRESTEZA DO CANTO

Escorro deste musgo as bátegas geminadas da chuva que, durante a noite, acetinaram os campos. As azinheiras, agora vejo, alegram-se robustecidas e quase voluptuosas; sublimam-se, dir-se-ia, na surdina das folhas, aclaram com maior insistência a viveza da atmosfera.
Aproveitarei este consentimento cintilante da natureza que me confidencia uma franja de tempo alheia a desencantos, a emboscadas, a ferezas: propícia enfim, e fecundamente, ao Canto. Vigiarei, apesar de tudo, com cautela, o estremecimento do coração, o percurso imponderado do pensamento.
Cada instante semeará agilidades e confianças, demoverá incertezas e letargias, modulará arabescos às entoações a surgirem.
Maravilhoso, apalpar nas mãos a água sobre o musgo da rocha a verter-se por ali abaixo, em silêncio, sem tumulto!.. ........
Porém um dia as azinheiras perderão as folhas e hão-se chorar como feridas mulheres sem defesa, constrangidas, inibidas.
Até lá, que a presteza do Canto resplandeça no entanto, que as recatadas palavras vozeiem no poema, lá para o lado insubstituível da alma


OBSTÁCULO

Mais que lutar me atrai a placidez
desta noite serena, do seu calmo
desenvolver-se: alheia a sobressaltos
como feita de um único sossego.

Talvez lá fora gritem os tumultos
de mil vozes sofridas magoadas
e haja manchas perdidas na calçada
de corpos que passaram inseguros.

E outras tristezas cobrem o silêncio,
sem prémio carregado de receio,
desta insónia vulgar que não me deixa
ver afinal que à noite o dia vem.


QUE SEJAS TU, SÓ TU

Entrego-te o dia de ontem, o dia de hoje, o dia de amanhã: daqueles receberás a luz restante e deste uma claridade maior.
A mesa onde nos sentarmos acolherá a perenidade das alianças, a castidade dos enlaces e das lealdades, o perfume de nomes recolhidos.
Entrelaçaremos os dedos, tacteando com os olhos o perfil dos lábios, os joelhos afagando até ao encontro.
Na imensidade do nosso consentimento hão-de deambular trilados de prazer, um veleiro transportará canduras de euforias a flutuarem, a ondejarem sem preguiça.
Que eu te ofereça, pois, a intemporal proeza da minha peregrinação que não ressoa, não, como algo de sombreado ou de taciturno. E se a carne me afervora ainda, se o frémito do peito me chameja contínuo, se a largueza dos impulsos jubila de calor os lampejas das veias, que sejas tu, só tu, quem lenifique a dureza do passado.


ANTINOMIAS

Prendes num dia o que desligas noutro,
e entre o não e o sim não há meio termo:
o passo dado em frente com desvelo
revolta após por pouco duradouro.

Negas agora mas depois afirmas
e quando afirmas saberás negar:
ponteiro de um relógio que não gira
e quando gira é como se parasse.

Um cão fiel à infidelidade:
um infiel fazendo a guerra santa
com tanta santidade e temperança
que se desdiz ao prosseguir p'ra trás.


Anelo

Quem me dera ser o vento:
tu, nua, receberias
nos teus seios meu alento.

Ou ser rosa:
a cortarias, no teu peito a deporias
como adereço opulento.


Se aberta a porta que percurso encontra
a ânsia modelada em febre e espera
feita de solidão e sem caminho

Indolência de rectas são as manchas
do pensamento súbito calado
palidamente a perscrutar no vácuo

A geometria do imponderável
bebendo no receio de amanhã
o que resta sem cor da ante-véspera

Por entre as confluências do acaso
que luz absorta vivifica a via
onde corre veloz o pensamento


O astro

Onde se queima a luz, translúcido, no astro
o horizonte surge do seu curso —
e alucinado, amorfo, enquanto o grito
em vento se traduz, o gesto apaga
lúgrube e fresco a força do infinito.

Eu fico entre a surpresa e o desânimo,
pois entreguei meus dedos inseguros
à lucidez da véspera: toldou
assim meu ser a cicatriz das horas
e o dia que esperava não soou.

Quebro na sombra aquela dor longínqua
como recordação em chaga revivida...
O astro se perdeu: dentro de mim o vejo,
ele permuta o sol e a escuridão
envolto no silêncio em que rastejo.


Nunca regresso ao ponto de partida,
quando me leva como eremita
a solidão do dia em que viajo,
quando nem horizontes desordenam
com seus fechados véus
a vontade afincada de transpor
as linhas clandestinas.
E porque voltaria? Trabalhoso
seria descobrir
de novo a senda aberta ao retornar,
com poeiras e pedras, sobressaltos,
em toda a dimensão da revoada.
O ponto de partida
diluiu-se aliás no pesadelo
de noites infindáveis, sem contorno,
sem astros pelo céu a tilintarem
e sem segurança do romper
da manhã desejada.
Companheira leal, a solidão
parte sempre comigo
até onde a distância não existe.


.