![]() |
||||||
|
António Amonte OBRA |
||||||
Um dia sentar-me-ei
Para não mais me levantar.
Num dia de sol.
Um dia bonito.
Escolherei um jardim...
Para poder contar narcisos
Esquecidos entre as rosas.
Criarei musgo nas pernas,
E hei-de albergar seres pequenos
Nas dobras do meu casaco.
Passarinhos sentar-se-ão,
Chilreantes,
Neste banco de jardim.
Nesse
Banco de jardim...
Esquecerei quem me trouxe.
Esquecerei quem me leva.
Esquecerei quem já fui,
Já sou,
Ainda serei.
Desaprenderei esta língua.
Esvaziarei esta mente.
Serei X,
Apenas X,
O indivíduo X,
Que um dia se fartou
E num banco de jardim se sentou.
Avanço
No meio de uma
Vaga
Multidão.
Avanço entre
Gente
Que anda,
Que desconheço,
Que desencontro.
O chão
Pisado
É cinzento
Duro.
Um chão convexo,
Árido,
Que afasta
Quem se aproxima.
Um chão
Deserto.
Há olhos,
E pernas de indústria
Que rodam
E rodam
À volta de mãos
Que vomitam palmadas;
De mãos suadas,
Calosas.
Há um silvo
De sereia
De fábrica,
Batendo
Ao ritmo
De pés que nunca param.
Há uma triste,
Alheada,
Soluçada,
Orientação;
Como se uma criança
Chorasse
No meio
Da multidão.
Há muito que te digo
O inevitável.
Há muito que não ouves...
Há tanto que se diga
E tão poucas palavras certas!
É muito difícil fazer
Com que tudo soe bem...
Sei que sei tão pouco...
E tão pouco não me diz nada.
Dos abismos onde nasci
À estranha luz que me acolhe
Vão distâncias,
Que me parece,
Nunca medi.
São caminhos de infinito
Que nunca percorri.
São estrelas...
Devaneios.
E enquanto olho p´ra ti,
Adormeço;
Cansa-me
Explicar.
Explicar-me.
Dentro de mim há um vazio
Porventura inexplicável.
Há uma distância.
Há um caminho.
Há um destino
Inevitável.