a.gil
OBRA


Natal

Não muito longe dali, a maior árvore de Natal da Europa, do mundo ou sabe-se lá de onde fazia os encantos dos lisboetas e habitantes dos subúrbios, que rumavam à praça para se deixarem cegar pelas luzes da estrutura metálica. Mas naquele banco de pedra, junto ao rio, não era Natal. Pelo menos assim o desejava, agora que olhava a outra margem e fazia por esquecer. Partiria, em breve. Sem deixar para trás nada que merecesse ser guardado num livro de memórias. Cansara-se das noites sempre iguais. Das que saltava de bar em bar, à custa dos comprimidos azuis. E também das outras em que se entregava às lágrimas no aconchego do sofá. Das madrugadas que não chegavam a manhã em braços que em vez de aconchegar magoavam. E daquelas em que acordava com o sol a entrar timidamente pelas frechas do estore. Iria sem despedidas. Sem uma carta escrita com lamentos e penas. Nem sequer um simples e-mail que apenas diria até sempre. Agora que estava certa da viagem só lhe faltava mesmo ganhar coragem e mergulhar.


estás

nas manhãs remelosas. nas noites de insónia. nos discos em auto-repeat. nas imagens que invento. nas palavras que junto sem sentido. nos filmes de amor trágico. nos livros que falam de coisas sérias. nas manchetes sangrentas dos tabelóides. na chávena de leite achocolatado. no ronronar do gato que se deita a meu lado. no relato da partida de futebol no canal codificado. em mais um cigarro que sorvo. e ainda no fastio a que me obrigo. no chão da sala polvilhado de sapatos. nas folhas de papel riscadas. foda-se. estás em tudo. em todas as coisas. em todos os sentidos que confundo. em cada sonho. em cada pesadelo com a morte. nas fugas. nas corridas infundadas contra o tempo. em mim. apenas em mim insistes em estar. longe.


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