Cavaleiro Andante
por
Artur Tomé
arturgtome@hotmail.com
 


15 - A infância de todos nós





A banda desenhada cria heróis e personagens que se embebem em todos nós, por vezes sem que nos apercebamos de tal. Mas deixam marcas, moldam sonhos, criam modelos de comportamento que nos acompanham pela vida fora. Mesmo quando pensamos que não ligamos àquela forma de expressão.

A Mafalda contestatária, Calvin e Hobbs, A Turma da Mónica, um universo de figuras que vão alimentando a nossa alma, por muito que tal literatura não nos pareça séria, na altura. Mas é.
Errata:
No post anterior atribui a Vítor Palla a autoria de contos e novelas inspirados no Pai Natal e nos 7 anões. Erro meu, a sua autoria é de Francisco Branco que surgiu em muitas edições de Vítor Palla, daí a confusão.
As minhas desculpas.


14 - Mais autores portugueses

Dick Haskins

Com uma produção mais clássica do que a de Ross Pynn, este autor português conquistou certo renome internacional para além de ter coordenado uma colecção DH, com obras de vários autores na área do policial e ficção científica. As suas antologias de contos são também interessantes
Embora reeditado recentemente pela ASA, os seus livros só são encontráveis num ou noutro alfarrabista.

Vitor Palla

Coordenou a melhor revista de contos policiais que este jardim à beira mar plantado já viu: a Vampiro Magazine. Aí publicou alguns contos da sua autoria, com deliciosas adaptações de figuras da literatura infantil, como os 7 anões. Um dos seus contos trata de um crime na noite de Natal, cuja solução é deixada pelo Pai Natal, o qual resolveu o mistério através da análise dos sapatos deixados na chaminé.
A sua actividade editorial levou-o a lançar os Livros das 3 Abelhas, em sociedade com Cardoso  Pires
Mas, muito mais do que isso, foi arquitecto e fotógrafo, com importantes trabalhos numa e noutra área, mas sempre imerecidamente esquecido pelos seus pares.


13 - Autores portugueses em BD

Com o filme do Tim Burton que vem aí, lembrei-me que só conheci Alice no  País das Maravilhas através da BD de Fernando Bento no Cavaleiro Andante. O entusiasmo foi tal que perdi para sempre o interesse em ler o livro.
Fernado Bento foi um desenhador incansável, dando a conhecer grandes obras aos mais novos como Beau Geste, por exemplo. Claro que há o Garcês, com desenho mais à Harold Foster do Príncipe Valente, mas a produção e qualidade de Bento sempre foi mais da minha simpatia.
Bem me esforcei por encontrar algo sobre ele no Google, mas debalde.

Atrás do F Bento veio-me à memória outro grande nome da BD portuguesa, neste caso argumentista. Trata-se de Edgar Caygill, que trabalhou várias series para o Mundo de Aventuras como Tomawak Tom, sempre em parceria com o ilustrador Vitor Peon


Se não conhecem o nome de Edgar Caygill, talvez o nome de Ross Pynn vos diga alguma coisa. Autor de policiais mais duros que Spillaine e autor de excelentes antologias policiais, é um autor polífero facilmente encontrável em qualquer alfarrabista.
Ross Pynn e Edgar Caygill são alter egos do jornalista Roussado Pinto, um autor prolífero, que nunca será estudado nas academias. Mas um incansável  criador de sonhos para os mais jovens e menos jovens, durante várias gerações.


12 - A Fantasia já não é o que era

Circunstâncias que não vêm para o caso levaram-me a rever as primeiras 100 edições da Argonauta. Para mim e para muitos da minha geração, trata-se da maior concentração de obras de qualidade que qualquer editora deu à luz neste país. Ideias provocantes que passavam ao lado do lápis azul da Censura que a devia considera literatura menor. Conceitos revolucionários e estimulantes, tanto na área da sociologia como no das prospectivas da tecnologia. Para já não se falar nas fascinantes capas de Cândido Costa Pinto.
Estão entre esses 100, dois dos melhores livros que li até hoje.










"Crónicas Marcianas" de Ray Bradbury (o autor de Fahreneit 451) é uma colectânea de contos ligados pela epopeia da colonização de Marte. Uma obra-prima de prosa poética, com pouca verosimilhança científica, com marcianos telepatas que vivem num tempo paralelo ao dos humanos, canais, mesmo quando já se sabia que não existiam, flores de cristal num maravilhoso mundo onírico...







"City", de Clifford Simak, é também uma colectânea de contos mas estes são fragmentos de uma lenda segundo a qual teria havido uma civilização de seres chamados homens antes da actual civilização canina. Teriam sido os homens que ensinaram os cães a falar e criaram os robots que os apoiam. Evolução amarga da decadência da civilização humana ao longo de 10.000 anos, City tem das maiores concentrações de conceitos inovadores já reunidos num livro. Desde o mutante que cria estufas para os formigueiros, para obstar à hibernação das formigas e permitir assim a sua evolução civilizacional e tecnológica, à ética que os cães instauram entre os outros animais proibindo que se matem uns aos outros, à fuga dos humanos para o paraíso de Jupiter através de transferência para os corpos de seres que lá vivem, ao estilo de Avatar, "City" é uma viagem bucólica a uma utopia onde o ser humano não deixa saudades

Curiosamente, tanto Bradbury como Simak foram autores de 3 ou 4 livros muito bons mas têm uma produção mediana e sensaborona de muitos outros com que não vale a pena perder tempo. Mas isso são outros contos.


       

11 - Breve história de quase tudo

Por hoje, vamos falar de mais um autor inglês de best-sellers. Só que as suas obras não são argumentos de bd ou ficção científica. São livros de viagens.
Sucede que este autor de best-sellers de livros de viagens escreveu um best-seller de ...divulgação científica. "Breve história e quase tudo" de Bill Bryson é o mais fascinante livro de ciência que consegue tratar de forma concisa, divertida e científicamente correcta toda a evolução do conhecimento humano desde a constituição da matéria até à descoberta dos movimentos tectónicos,do génio de Newton e Einstein às tricas e intrigas de cientistas quanto às suas descobertas.
Desta obra magnífica, destaco dois textos:
 
1. (ao historiar os estudos sobre fosseis animais soterrados em cinza no Nebraska...) O que matara os animais fora uma explosão vulcânica de dimensões até aí inimagináveis - mas suficientemente grande para deixar uma camada de cinza de três metros de profundidade a uma distância de 1600km, no leste do Nebraska.
Descobriu-se então que, no subsolo do oeste dos Estados Unidos, havia um imenso caldeirãao de magma que explodia periodicamente de forma drástica, de 600 mil em 600 mil anos. A última dessas erupções foi há pouco mais de 600 mil anos. A zona de ebulição ainda lá está. Chama-se hoje em dia Yellowstone National Park.
 
2. " cada ser vivo é uma elaboração de um único plano original. Enquanto humanos somos meros incrementos... temos, incrivelmente, muita coisa em comum com as frutas e legumes. Cerca de metade das funções químicas que ocorrem numa banana são iguais às que ocorrem dentro de si.
"Nunca é de mais dizê-lo: a vida é una, isto é, e suponho que provará ser sempre, a declaração mais verdadeira e profunda que existe."


10 - BD Inglesa, a grande esquecida

Por razões devidas a estranhas ligações editoriais, a bd inglesa pouco eco teve na Europa e nos Estados Unidos, apesar da qualidade de muitas das suas obras.
Sexton Blake e Buck Ryan ainda apareceram por aí nos tempos do Mosquito. Já Jeff Hawke, uma das melhores bd de ficção científica, apenas tocou os editores italianos, que publicaram as suas aventuras na revista mensal Linus. A originalidade demonstrada na criação de ETs, o humanismo e a verosimilhança dos seus argumentos, mereciam melhor sorte e aplauso.

Chalcedon, um pirata perseguido pelas autoridades da Federação Galáctica. Mas como a Federação não é flor que se cheire, Jeff Hawke ajuda-o na sua fuga.

Resta Modesty Blaise, publicada em Portugal no Diário de Notícias na década de 60 em páginas semanais e, mais tarde, na Capital em tiras diárias. Ilustrada por Holloway, com um traço realista inimitável, as aventuras de Modesty nasceram em BD, passaram para uma serie de livros e teve uma adaptação desastrosa ao cinama, num filme de Joseph Losey que foi uma estragação do trabalho de três grandes actores: Monica Vitti, Terence Stamp e Dirk Bogard.

Chefe de uma rede criminosa internacional, Modesty Blaise reformou-se aos 25 anos juntamente com o seu braço direito Willie Garvin. Mas acabam sempre por se meter em sarilhos, quer ajudando sir Tarrant, o chefe dos serviços secretos ingleses, quer por sua própria iniciativa. Peritos em todos os tipos de artes marciais (em especial Willie, cujas únicas armas são duas facas de arremesso), com contactos valiosos no meio de antigos colaboradores, forma uma equipe sui generis, com uma ligação afectiva mais forte do que mantêm com qualquer dos amantes. As suas vitórias são conseguidas mais à base de estratégias inteligentes do que pela utilização da força bruta.
Numa boa casa de bd ainda poderão encontrar alguns dos seus albuns. Os livros são mais difíceis de encontrar e os 5 primeiros são os mais interessantes.


9 - À boleia pela Galáxia



E voltamos aos autores ingleses, a propósito de hoje, domingo, passar este filme na TVCINE3.
The Hitchicker Guide to the Galaxy é um trabalho de Douglas Adams que começou como programa de rádio e foi adapatdo a livro (uma trilogia em 5 volumes) e finalmente, a cinema.
É um manancial de humor louco, onde se refere, por exemplo,  a existência de seres com 50 membros que constituiram a primeira civilização a inventar o desodorizante antes da roda.
Mas não divaguemos.
Há muitos séculos atrás, uma certa civilização decidiu construir um computador para responder à grande questão sobre Deus, o Universo e Tudo o Mais.
O sindicato dos psicólogos e psiquiatras não viu o projecto com bons olhos, temendo ficar sem emprego mas, uma vez ligado, o computador disse que precisaria de 7000 anos para encontrar a resposta.
Findo esse prazo, veio a resposta: 42
Foi então que se percebeu que o problema estava no facto de ninguém saber qual a pergunta.
Novo computador, muito muito grande - o planeta Terra -, e uns milhõezitos de anos para encontrar a resposta. Quando o prazo se aproxima, a Terra é arrasada.
Sobrevivem dois terrestres, um rapaz e uma rapariga, que viajam numa nave movida a improbabilidade ilimitada, acompanhados pelo presidente da Galáxia, um ET que passava por terrestre aqui na Terra e Marvin, um robot super-inteligente e ultradeprimido.


8 - A INFANCIA DE TODOS NÓS

Claro que a minha paixão pela bd anglo-saxónica não me faz esquecer o muito que gerações devem ao imaginário dos autores franco-belgas.
Reverenciemos a memória de Hergé e Edgar Jacobs mas passemos a outros dois autores de imaginação delirante e humor irresistível.
Para começar, Goscigny.
Criador de Lucky Luke, o cowboy mais rápido que a própria sombra, e das desventuras do pérfido vizir Iznogoud - o tal que quer ser califa no lugar do califa - Goscigny, foi, acima de tudo, o imortal criador de Asterix e Obelix, mais a parafernalia de personagens impagáveis, entre os irredutíveis gauleses e os doidos dos romanos.

Menos popular mas não menos criativo e louco, FRANQUIN criou a serie Spirou, onde os desenhos adquirem quase uma irriquieta vida própria, que atingem o apogeu com o aparecimento do Marsupilami, primeiro, e de toda a sua família depois.
Mas onde a imaginação de Franquin atinge o máximo de loucura é na criação de Gaston Lagaffe, o paquete da redação do jornal Spirou, inventor de engenhocas mirabolantes, que conduz um Ford T a cair de podre e que pouco mais é que uma fábrica de fumos de escape. Como se isso não bastasse para moer o juízo a colegas, vizinhos e ao polícia de trânsito, Lagaffe transporta ainda para todo o lado onde vai, uma monstruosa tuba da sua invenção e um autêntico jardim zoológico que inclui um gato, peixinhos dourados, um pássaro e bicharada diversa.

Pais dos amigos de infância de todos nós, ao longo de várias gerações, Goscigny e Franquin educaram e divertiram pais e filhos, com alegria, imaginação e sem sombra de maldade.


7 - Rasputine reencarnado







Alan Moore, este senhor que podem ver na foto, tem um aspecto que meteria medo a Rasputine. Mas uma das suas obras, Watchmen, foi seleccionada pela Time como uma das 100 melhores obras em língua inglesa do sec XX.
O que não seria nada por aí além, não for-se dado o caso de Watchmen ser um album de banda desenhada. Que também ganhou um Hugo e um Nebula, prémios máximos para obras de ficção científica, que nunca, até então, haviam incluído bd nas suas selecções.
Watchmen está adaptado a cinema, o DVD está aí à venda (recomendo) e é a única adaptação ao cinema que não denegride o trabalho deste autor.
Constantine é fracoso, "Clube dos Cavalheiros Extraordinários" deve ser o pior filme que vi na vida (os primeiros volumes da serie em bd são notáveis), From Hell e V for Vendetta são filmes razoáveis de ver para quem não conhece os albuns originais.
Verdade seja dita, em favor de produtores e realizadores que tentam converter o mundo de Alan Moore para o cinema, que se trata de uma missão cheia de armadilhas. From Hell é o album de bd mais negro e violento que já conheci, a versão cinematográfica teria sempre de ser liofilizada.
Com uma cultura literária vastíssima, para além de um conhecimento enciclopédico sobre ocultismo em geral e maçonaria em particular, Alan Moore é um génio da literatura actual e um dos autores mais inquietantes e incómodos que já conheci.


6 - O Christian Andersen do sec. XX



Os super-heróis começaram por ser uns felizardos. Sempre limpinhos e felizes, combatiam o Mal com um ou outro soco nos assaltantes a bancos e o seu maior problema era manter secreta a sua identidade civil. Fora isso, levavam uma boa vida sem , aparentemente, trabalharem - o Arqueiro Verde era arquitecto mas ninguém lhe viu uma maquete duma casa, o Flash trabalhava numa CSI qualquer e o Super-Homem era repórter mas raramente estava na redação.
Chega a década de 60 e a editora Marvel lança uma revolução. Os super-heróis, agora, têm problemas e não são pessoas perfeitas e felizes. O Homem Aranha é um adolescente gozado eplos colegas da escola e sem saída com as garotas, o Demolidor é cego, o Homem de Ferro é alcoólico e o Hulk fica uma besta quando se enfurece.
Por detrás dessa revolução, um único argumentista. Stan Lee.
Embora cada figura da Marvel seja um produto que a editora pode dellegar noutras equipas criativas em regime de franchising, foi Stan Lee que criou todos os grandes êxitos da editora, definindo personalidades e poderes, não só dos seus heróis ( onde ainda podemos encontrar Thor, o Quarteto Fantástico, X-Men e muitos outros), como os seus amigos, namoradas e respectivos vilões - Kingpin, Dr. Doom (que serviria de inspiração para Darth Vader), o Duende Verde, o Surfista Prateado ( que surge como "mau" mas se converte e se torna protector da Terra), etc
Mesmo para quem não lhe conhece o nome, Stan lee marcou o imaginário de toda uma geração e revolucionou a temática da BD, abrindo-a a temas polémicos como a droga e o racismo.


5 - Porque hoje não há  crónica

Esta página tem tratado  - e irá continuar a tratar - de figuras culturais que fazem e fizeram parte do nosso imaginário infantil. Super-heróis, ETs, duendes, princesas virgens e outras figuras mitológicas.
Sucede que a semana que atravessamos glorifica algo totalmente diferente: o Menino Jesus nascido nas palhinhas e aquecido pelo bafo do burrinho e da vaquinha, os Reis Magos que encontram o presépio seguindo uma estrela GPS...
Mesmo os mais materialistas estão ocupados a colaborar com São Nicolau, patrocionado pela Coca-Cola que lhe criou o fato, e que vem no seu carro voador puxado a renas para pôr os presentes nas chaminés, mesmo que estas estejam substituídas por exaustores. A  magia do Natal não vê obstáculos em pormenores tão comezinhos.
Daí que os temas que normalmente aqui se tratam não tenham cabimento nesta época.
Assim, desejo a todos os leitores um Bom Natal e um Feliz Ano Novo. O Cavaleiro Andante estará de regresso para a semana.
 

4 - A VINGANÇA DOS NERDS

Há 30 anos atrás, adulto que se interessasse por bd ou ficção científica era considerado um caso perdido no mundo cultural. Surgiram então duas evoluções opostas nessas áreas: a produção literária da FC foi-se degradando, obras primas como o Mundo dos Dragões de Anne McFray ou o Feiticeiro de Terramar de Ursula LeGunn evoluiram para foleiradas de livros sobre guerras de feiticeiros e reinos místicos, sem conteúdo humano ou literário. A BD deu a volta por cima, com Frank Miller a relançar a figura de Batman em O Caveleiro das Trevas e Alain Moore com Watchmen, V for Vendetta, From Hell e vários outros...

Aí entra o cinema. Que descobre primeiro o mundo dos super-herois e os relança com espectacularidade visual  e maior qualidade interpretativa ( Michelle Pfeiffer como atwoman, danny de Vito como Pinguim, Heath Ledger num fabuloso Joker). As short-novels de FC convertem-se em filmes de culto, com destaque para a obra de Philip DicK (Blade Runner, Total Recall, Relatório Minoritário...)

Os conceitos do que eram temas infantis convertem-se em blockbusters com que a indústria cinematográfica conta para sobreviver. Quase sempre esbatendo o revolucionário que alimentava tais conceitos e valorizando apenas o espectáculo pelo espectáculo.

Hoje o cidadão normal apanha com filmes como "Os Substitutos" "O Jogo" ou "Avatar" sem ter consciência de que aa implicações da invasão do mundo real pelo mundo virtual eram escalpelizadas décadas antes em revistas e colectâneas de contos de FC.

Só no Avatar, encontrei pastiches do Mundo dos Dragões ( Dragonriders,com a ligação emocional entre cavaleiro e montada ) e City de Clifford Simak ( com a colonização de um planeta hostil através da incorporação de terrestres no corpo dos nativos). A floresta que incorpora o inconsciente colectivo e ensina e cura os seres que nela vivem também era tema já tratado em obras antigas.

Se ao menos estes filmes servissem para o grande público descobrir os clássicos...


3 - O Natal dos Alfarrabistas

Se há lojas que sempre me fascinaram foram os alfarrabistas de Lisboa. Talvez por passar a minha infância enfiado no sotão de uma avó, com folhetins do sec XIX e em casa de um tio com revistas do tempo da 2ª Guerra Mundial. Adoro o cheiro de papel veho e descobrir preciosidades literárias e gráficas de antigamente.

Sucede que o negócio dos alfarrabistas está quase em vias de extinção. Montes de revistas e livros, e gravuras, sem ninguém que os compre.
Trata-se de uma ameaça a um património cultural que urge salvar e a minha sugestão é a de que aproveitem a época natalícia para lá comprar prendas originais. Livros da Vampiro e Argonauta, dos tempos em que os policiais e a ficção científica tinham histórias inteligentes. Se já estão fartos de crimes em catedrais, com os maus à procura de símbolos perdidos, se já não suportam aventuras românticas com vampiros ou feiticeiros em crise de adolescência, não percam esta possibilidade de adquirir trabalho originais e que não ofendem a inteligência de quem compra e de quem vai ler.

Aqui em Lisboa, podem começar pela esquina ao cimo do elevador da Bica, ir até àquela livraria ao lado da Cervejaria Trindade, e, se ainda tiverem tempo e dinheiro, descer pelas escadinhas do Duque, onde encontram duas lojas do mesmo dono, uma mais especializada em bd, outra com livros de ocultismo e astrologia - mas tb Vampiro, Argonauta, Caminho de bolso, e a velhinha Colecção Xis.

Bas compras, boas leituras e Boas Festas.

PS: Fora da zona indicada, recomendo também a antiga Ulmeiro na Av do Uruguais (já mudou de nome, não recordo agora qual) AQUI


2 - Se Shakespeare tivesse um computador portátil…




Há muitos séculos atrás, numa galáxia distante… melhor dizendo, antes que uma senhora inglesa se chateasse com o marido português e começasse a escrever longos livros chatérrimos sobre um adolescente imbecil chamado Harry Potter, o autor mais vendido em Inglaterra chamava-se Terry Pratchett.

Claro que ser um top de vendas nada significa quanto ao valor literário do autor – mas Pratchett construira um universo de figuras coerente, delirante e profundamente bem estruturado. O seu Discworld é uma sociedade de natureza medieval, habitada por seres humanos, vampiros, trolls e toda a parafernalia das histórias de fadas. Há a Guilda dos Ladrões e dos Assassinos (que passam recibos e pagam impostos ao Estado sobre o seu trabalho), há uma Universidade de Magia, The Unseen University, (à volta da qual gravitam magos poderosos e feiticeiros de meia tigela), a Guarda do Palácio, as 3 bruxas do Hamlet e a Morte, entre outras figuras inesquecíveis que agora não me ocorrem.
Adaptadas também a BD e a teatro, as aventuras de Discworld não têm heróis residentes. Qualquer das principais personagens de uma história pode ser figurante noutra ou estar ausente em meia dúzia de livros. Nem o tom da escrita se mantém: as aventuras da Guarda são um misto de capa e espada e 007, algumas aventuras com magos contêm cenas assustadoras, as intervenções das 3 bruxas são de gargalhada pegada. Em quase todas as histórias Death está presente como supporting character, comunicando telepaticamente com as pessoas EM MAIÚSCULAS – à excepção do livro Mort, em que Death contrata um aprendiz não muito inteligente o qual cria um sarilho de dimensões cósmicas ao impedir que uma linda princesa por quem se apaixonara seja morta na data devida.

Aventura, terror ou comédia, Discworld é um mundo de literatura ligeiramente louca, ligeiramente surrealista, que revela um autor de imaginação prodigiosa que nunca deixa de nos espantar, encantar e divertir.
30-10-09


1 - O Meu Professor Inesquecível




Foi com o Cavaleiro Andante que aprendi a ler. Tinha o Tim-Tim e o Templo do Sol e O Mistério da Grande Pirâmide, com o Blake e Mortimer, que iriam ser os meus herois por muitos anos.
Pessoal da minha geração formou-se culturalmente com aquela revista editada pelo Adolfo Simões Muller, e, os que não iam muito à bola com aquilo que viria a ser conhecido como a escola franco-belga, viravam-se mais para o Mundo de Aventuras com o Mandrake, o Fantasma e o Flash Gordon.
Eu alinhava em ambas as correntes.
Normalmente, ao entrar na puberdade, o pessoal largava os quadradinhos e virava-se mais para o desporto e para o sexo oposto. Comigo não foi bem assim. Na rua onde nasci, a vizinhança mais próxima da minha idade era toda ela do sexo oposto. Cresci entre miúdas, com consequências que não vêm agora para o caso.
O desporto foi-me proibido pelo médico, tinha eu 11 anos, graças a um diagnóstico de coartação da aorta. O liceu Pedro Nunes tinha uma excelente biblioteca e passei o horário da Educação Física lá metido a ler Mosquitos, primeiro, e depois as colecções de Júlio Verne, Tarzan, Sherlock Holmes e Cavaleiro de Lagardère.
Os professores do Pedro Nunes eram óptimos -  fui aluno do Palma Fernandes a Matemática e do Rómulo de Carvalho a Físico-Químicas, um luxo de ensino. Mas a cultura do Simões Muller marcou-me tanto ou mais que o Eça ou Trindade Coelho.
Talvez por isso, não renunciei a tais leituras ao crescer. Ainda era fã do CA quando apareceu a história da Marca Amarela que criou uma histeria entre a miudagem da altura, com o símbolo a aperecer grafitado em todas as paredes ( sendo que entre a Estrela e a Pampulha, a autoria dos rabiscos era aqui do je.)
A família contribuia para o vício. A minha avó tinha um sotão com folhetins de cordel do final do sec XIX, um primo que vivia com ela tinha os primeiros livros da Argonauta, uns tios com quem passava férias tinham uma colecção de Gibis brasileiros com as primeiras histórias do Capitão América, Homem de Borracha e Capitão Marvel.
Apanhei o vício de toda essa literatura menor e não o larguei até hoje.
E não é que nessa literatura "menor" se encontram pérolas de alto valor cultural?
É disso que conto falar aqui no Cavaleiro Andante. Autores que marcaram o nosso imaginário, com uma criatividade e humor muito pouco reconhecidos. Venham daí comigo.
(23-11-09)